Conto: o último, por Luciana Minuzzi

Como não pude postar na sexta-feira, trago um conto inédito para esta segunda. A autoria do texto é desta que vos fala. Espero que gostem. 🙂

Fora isso, quero contar que a produção da revista impressa está quase finalizada. Ainda neste mês, a Cornucopia Vacua estará nas suas mãos. Fiquem ligados.

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

O último

Por Luciana Minuzzi

Ele desabotoou a calça, abriu o zíper e a barriga flácida inflou liberta do cárcere. Subiu uma nuvem de urina e bolas peludas suadas que fez meu nariz coçar. O filho da puta disse:

– Tô com pressa, gostosona.

E ficou ali, de pé. Sorriu arregaçado e esperou que eu lhe esvaziasse o saco.  Era daquele tipo que fica igual a uma múmia e espera que eu faça tudo. Respirei fundo e repeti para mim mesma:

– Esse vai ser o último.

Esse pensamento foi tão reconfortante que me escapou um sorriso. Comecei o trabalho. Coordenei respiração e ânsia de vômito. Tenho que convencer o cara e a mim que gosto disso. Tem uns que preferem que a gente faça cara de dor, até chore e isso eu acho bem mais fácil de fazer, é só deixar transbordar o que sinto no momento. Para não pirar, imagino que aquele pedaço de carne na minha boca é um picolé que traz alívio nos dias bem quentes. Queria voltar aos meus oito anos quando a maior preocupação era quando o sorveteiro iria passar e eu teria esse momento doce.

Nessas horas, meus olhos sempre recaem na Nossa Senhora em cima da mesinha. Era da minha mãe e hoje fica parcialmente escondida atrás de uma vasilha com camisinhas coloridas. Esses plásticos de todas as cores são a coisa mais alegre e brilhante do quarto. Minha mãe sempre quis que eu fizesse faculdade, só não sabia o quanto isso ia custar. A vida em uma cidade maior, as prestações, o aluguel, tudo pago pelos bons homens da cidade sempre dispostos a meter o pau em algum buraco. Imagino-a em meio às compotas que vende para os turistas. Que continue envolta por doces e nunca imagine nem por um segundo o que a sua tochter faz para garantir que o diploma enfeite a sua parede um dia.

Não demorou muito e ele terminou, desperdiçando uns milhares de espermatozoides no chão. Pagou só por aquilo, então já está amassando a pelanca da barriga com o cinto de couro fajuto. Será que tinha alguém esperando por ele em casa? Vejo-a com nitidez na minha mente: os braços cruzados na janela, olhar distante de quem sabe o que o maldito está fazendo, mas não quer acreditar… Os olhos negros tomados pelo vazio do desamor.

Peguei as notas amassadas e comecei a me limpar. Nunca parece que uso sabão suficiente. Mal tive tempo de limpar a meleca branca no chão e recebi uma mensagem: “Tô subindo”.

Respirei fundo e repeti para mim mesma:

– Esse vai ser o último.

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8 opiniões sobre “Conto: o último, por Luciana Minuzzi”

  1. Me levou de volta aos anos de facul em Cruz Alta onde sabíamos as atividades de algumas amigas e fazíamos de conta que nínguem sabia para evitar constrangimento. Mas elas sabiam que a gente sabia e ficava um segredo enorme entre muita gente. Hoje algumas são profissionais renomadas na sua profissão, outras continuaram o que faziam na época da universidade e ainda outras quando caiu a ficha desapareceram.

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  2. É triste, mas muito triste. Não é em vão que o Cristo manifestou: “elas vos precederão no reino dos céus”. Isso é puro desamor… desses fajutos, sujos … mas é a realidade. Esse conto, está muito bem escrito, e com todos os requintes que o momento exigiu. Formidável.

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  3. Aqui em nossa cidade, alguns anos atrás não muitos, aconteceu algo muito triste com estas meninas universitárias, que estudam de dia, cursando direito, odontologia, psicologia e biomedicina, entre outras faculdades, um senhor de meia idade, um advogado de renome, um jurista acima de qualquer suspeita, fazia festinhas particulares para seus amigos e clientes, nestas festas rolavam tudo, principalmente drogas e ele filmou estas meninas, as filmou “trabalhando”, as filmou “drogadas”, as filmou “sozinhas e umas com as outras”, depois para seu deleite e de amigos mostrava as filmagens. Muitos dos vídeos e fotos foram parar na internet, famílias foram desfeitas, pais foram humilhados, jovens meninas jogadas num mundo sem volta e sem perdão. A cidade não comentava outra coisa, a universidade esvaziou, as meninas de outras cidades sumiram, as da nossa cidade foram embora para grandes centros… Uma, não resistiu a pressão e a vergonha, matou-se! A cidade silenciou! Ninguém mais comenta, é assunto sabido e proibido, todos sabem, ninguém quer lembrar. O advogado? Este teve em vida o que mereceu, o esquecimento, Alzheimer lento, aquele que come o ser humano de dentro pra fora, a doença que fez com que ele esquecesse tudo e vive hoje numa clinica de repouso, talvez preso dentro de sua própria consciência. A triste realidade ainda acontece, eu sei, a cidade sabe, mas ninguém tem coragem de comentar.

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