Conto: Pé pelado, por Luciana Minuzzi

Hoje tem um conto desta editora que vos fala. E ilustrado pelo Guilherme Hollweg, mais conhecido como Guiga. Quando não está desenhando ou lendo HQs, o Guilherme trabalha como programador e estuda Engenharia Elétrica na UFSM. Ele contou que sempre se interessou muito por desenhar e passou a refinar a sua arte quando integrou o Núcleo de Quadrinhistas Quadrinhos S.A., em meados de 2006. O trabalho dele já foi publicado em várias revistas Quadrante X, tiras semanais no Jornal A Razão e em páginas e sites da área dos quadrinhos. Confiram os contatos dele abaixo e vejam mais material dele.

Contatos do ilustrador Guilherme Hollweg:  guilhermehollweg@hotmail.com | Facebook  | Site

Quanto a mim, como já falei em outras ocasiões, sou jornalista e acadêmica de produção editorial na UFSM. Também trabalho como roteirista e dou oficinas de criação textual (podem me chamar pra trabalhos. He, he). Esse conto é de um tema mais leve, mas tenho escrito mais voltada para monstros e obscuridades do terror que é o objeto da minha pesquisa atual. Em breve, vou postar algo mais assombroso pra vocês.  – Luciana Minuzzi.

Meus contatos: minuzziluciana@gmail.comBlog

Ilustração: Guilherme Hollweg.

Ilustração: Guilherme Hollweg.

Pé pelado

Por Luciana Minuzzi

Você já deve ter esbarrado nela por aí. Ela é daquele tipo de pessoa que a gente quase não vê de tanto que se mescla no cardume das ruas. É mãe de três guris. O mais velho é o Bernardo. Os outros dois são os gêmeos Pedro e Gabriel, nomes escolhidos para não combinarem propositalmente. Falando em nome, o dela é Maria, só Maria mesmo. Aliás, toda vez que vai preencher um cadastro, conhecer alguém novo ou coisa assim, ela tem que dizer:

“Maria, só Maria mesmo.”

A mãe dela dizia que a batizou assim para ninguém esquecer ou confundir e Maria seguiu o mesmo princípio para nomear os filhos, sem nada de muitos “ys” e nomes compostos ou parecidos. Isso tudo porque a mãe de Maria se chama Antonina Josephina Ângela e esses três nomes complicaram muito a vida dela. Quando casou, ainda teve que acrescentar o sobrenome do marido: Fitzroy.

Além de trabalhar como mãe todos os dias sem folga, Maria é secretária do Doutor Tavares – que faz questão de ser chamado pelo sobrenome precedido do título de doutor. Ele é o verdadeiro baixinho invocado e carrancudo. Os frisos da testa parecem não ter fim visto a falta de cabelo na parte frontal da sua cabeça. Apesar da aspereza, é um bom dentista e justo com Maria.

Com um chefe tão exigente, os filhos, os dois cachorros e o gato, ela precisa estar desperta e disposta antes mesmo do Sol dar as caras. Mas naquele dia, ela não levantou com as galinhas. A cama estava mais convidativa do que o usual. Era o primeiro dia daquela semana em que os pingos de chuva na calha não a incomodaram durante a noite e um ar quente soprava pelas frestas da janela.

Os cinco minutinhos de soneca viraram um atraso de meia hora. Foi uma correria daquelas. Acordou os meninos, fez café, engoliu um pedaço de pão, cuidou dos cachorros, deu comida pro gato, arrumou ali, ajeitou aqui, beijou os meninos na testa e mandou para a escola. Abanou para os meninos que saíram pelo portão e espiou o Sol tímido por detrás das nuvens. O gato rolava e ronronava, brincando com o chinelo de Maria. Dona Mercedes, uma senhorinha que morava na casa de trás, aproveitou para estender a roupa úmida.

Suspirou… E, por um minuto, pareceu que o tempo havia parado.

O tic-tac do relógio a fez voltar para o ritmo e correr para chegar a tempo e não ouvir bronca do Doutor Tavares. Foi um vendaval tão grande que nem deu tempo de ligar o radinho companheiro para conferir a previsão do tempo. Maria olhou para as parcas roupas no armário. Muitas feitas pela mãe, ou usadas da irmã. Ela não gostava de se enfeitar, apesar de estar sempre bem asseada. Aproveitou que não viu sinal de chuva para colocar a sapatilha amarelinha. Foi um alívio depois de tantos dias usando o mesmo sapato fechado para não molhar os pés.

Quando pequena, a mãe sempre a fazia usar meias, pois acreditava que a mulher seria mais fértil mantendo os pés sempre quentes. No frio e no calor, Maria e a irmã Janice sempre estavam de meias. No inverno, com botinhas, e no verão, com chinelos de dedo. A crendice parece ter surtido efeito já que a dona Antonina Josephina Ângela é uma feliz avó de nove netos.

“Que bom poder deixar meu pé pelado”, pensou Maria.

Ao botar o pé para fora de casa, sentiu os pingos escorrerem pelos óculos. A chuva fria se misturava com o suor da caminhada rápida. Chegou a tempo de disputar um espaço sob a aba da parada de ônibus, mas foi empurrada para fora por um cara grande e bem mal encarado que chegou depois. Maria tentou proteger o cabelo bem penteado com a bolsa e desejou que o ônibus chegasse logo. O pedido foi atendido. Como dizem para ter cuidado com o que se pede, Maria se arrependeu prontamente. A roda do ônibus passou por cima de uma poça que mais parecia com a piscina de 1000 litros em que os filhos passavam o verão.

Os pés quase desnudos foram molhados e ela saltou para trás. O susto não a parou, no entanto, a sensação da água gelada misturada com terra entre seus dedos era boa, ela não conseguia explicar, nem entender. Só sentir. Os pés ficaram inquietos, começaram a se mover um para cada lado e ela estava sapateando como se fosse a própria Ginger Rogers em um ato com Fred Astaire. Enquanto olhava para os pés sem entender, as pernas e o quadril foram se contagiando e ela se sentia mais solta do que um dançarino de axé em pleno carnaval. Até mesmo o cara mal-encarado do ponto soltou a expressão dura e os olhos brilharam. A dança parecia um número da Broadway.

Em seguida, os braços e a cabeça de Maria entraram no compasso daquela música imaginária que parecia conter todos os ritmos. Pulou de uma poça a outra, sem parar. Rodopiou, sambou e rebolou como se tivesse sido invadida por todos os dançarinos de um festival internacional de dança. As pessoas na parada não conseguiram fazer nada a não ser aplaudir aquele espetáculo.

Maria não conseguia parar de sorrir. Ela estava tão alegre quanto cansada, molhada e descabelada. Outro ônibus veio e ela precisou ir. Subiu os degraus ao som dos aplausos. O sorriso não cessava. Estava em êxtase. Foi cantarolando até o consultório do Doutor Tavares que estava impaciente e pronto para despedir a funcionária. Ele não conseguiu. Ao abrir a porta, estava o rosto mais encharcado e feliz que ele havia visto. O sorriso de Maria desfez a carranca de Doutor Tavares que sentiu os pés formigarem e uma vontade enorme e inexplicável de dançar.

Daquele dia em diante, Maria não passava mais despercebida pela multidão. Ela sorria e contagiava qualquer um a sua volta. Dos filhos aos cachorros, da vizinha até o Doutor Tavares, todos se sentiram tocados por aquele acontecimento insólito que fez com que Maria descobrisse uma auto-satisfação escondida como o Sol entre as nuvens. Os pés não ficaram mais escondidos, ficavam sempre à mostra, prontos para bailar. Da próxima vez que você passar por ela na rua, não se esqueça de olhar os pés.

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6 opiniões sobre “Conto: Pé pelado, por Luciana Minuzzi”

  1. Que coisa mais maravilhosa… Tenho um poema que complementa teu texto… Um pé, do qual retiro o seguinte trecho:
    “… Um pé de moleque
    Adoça a boca,
    Um pé de Fernanda,
    Que coisa mais louca!!”
    Minha musa inspiradora é Maria Fernanda, e agora viajei no tempo e a imaginei sendo a sua “Maria” anos depois.
    Adorei teu conto!
    Parabéns Luka! ❤

    Curtido por 1 pessoa

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