Conto: O número do quarto é 123, por Verônica Morta da Silva

Ela pode até estar mortinha, mas a Verônica Morta da Silva produz muito e muito bem. Vai por vários braços da literatura como conto, micro conto, poesia e novela. Começou bem cedo. Com apenas sete anos escreveu um poema, recebeu muito incentivo da mãe e nunca mais parou.

A Verônica tem um mini-livro chamado “Pequenas palavras de um grande amor”, publicado em 2005 pelo movimento virArte de poesia. Também já participou de várias antologias poéticas e foi escritora homenageada na 1ª Feira do livro Infanto-Juvenil de São Luiz Gonzaga em 2006. Além de acumular alguns troféus por participações em coletâneas de poesias pelo movimento virArte e pela Casa do Poeta.

Já viram que a moça é gabaritada, né? Como ela acredita que o reconhecimento maior de um escritor é ter seus textos lidos, sem mais delongas, fiquem com o conto abaixo e boa leitura. – Luciana Minuzzi. 

Contatos da autora:

senhorita.pariu@gmail.com | Facebook | Página do Facebook Âmago

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

O número do quarto é 123

Por Verônica Morta da Silva

Os olhos estavam entreabertos e as janelas também. Ele usava duas cortinas pretas uma amarrada a outra e lençóis cor-de-vinho em seu quarto cheio de móveis caros.

Somente aos sábados ele abre as janelas. A rotina parece-lhe cortar e acrescentar ponteiros ao relógio. As chaves estão sobre a escrivaninha. Agora o vejo intacto e imperceptível aos olhos dos outros. Ele é um belo homem!

Percebo que ele não está bem, usa a mesma roupa há dias, não pede comida no restaurante habitual e parece estar guardando as bebidas na prateleira errada.

Faltam cinco dias para sábado… O número do seu quarto é 123!    Na cama em que ele dorme vê-se dois travesseiros, porém aos sábados ele guarda um. Ninguém nesse raio de mil metros sabe seu nome. Percebo que a desgraça percorre os cantos do quarto. Há um quadro torto na parede bordô, nesse quadro vê-se a pintura de um rosto feminino desfigurado.

Faltam quatro dias para sábado… Outra vez sinto mergulhar todos os sons do amanhecer. No espaço curto das cortinas opacas, vejo aquele homem com aparência cansada segurando um dos travesseiros. Aprofundando ainda mais o olhar vejo uma tesoura e fotos sobre a mesa. A mesa é de vidro e seu rosto reflete nela.

Faltam três dias para sábado… Hoje é quinta feira, acordo ansiosa e vou direto a janela. Percebo uma corda no chão e a tesoura ao lado. Um arrepio gelado percorreu meu corpo. Nesse momento ouço a campainha tocar, dirijo-me a porta. Há uma entrega do restaurante habitual dele. Sinto medo.

Na sexta-feira sem perceber acordo ao lado da vidraça que me é visível aquele homem. Vejo a corda e a tesoura enferrujada no chão. A corda cortada em pedaços simétricos que dão uma noção de pontilhado ou costura de cobertor velho.

– Eu, mulher livre, nunca me vi tão presa a ele!

…Ao sábado perguntarei seu nome. Imagino que comece com “R” talvez “P”…

A palidez da noite fixa-se no meu peito. Coloco minha cama ao lado da vidraça para que não haja dúvidas de que verei o meu homem. Preciso acordar na hora certa. A noite está vazia, a cama está vazia, meus bolsos estão vazios… Vou dormir.

É sábado! Enfim acordo apalpando a vidraça maldita. Me fará bem ver aquele homem. Desesperada abro bem os olhos, destapo-me, prendo os cabelos e então percebo que falta algo sucedendo minha janela.

– Não existe ninguém nesse raio de mil metros! E não há janela, não há cortinas pretas, não há quadro, não há parede bordô e não há homem nenhum.

Abro a porta do meu quarto e observo os números metálicos prateados e curvados “123” é o número, talvez na minha memória ouviria minha mãe me chamando de Raquel ou talvez de Paola.

Essa foi a primeira vez que existi e que amei a mim. Minha aparência enfadada não desconforta a maciez da minha pele. Acaricio-me, toco-me, como se eu fosse o homem que desejara, cruzando a passos lerdos o quadro torto com meu retrato na parede bordô, passo pela escrivaninha e então vou em direção as cortinas pretas, abro as janelas… Pois hoje é sábado…

 

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