Conto: O Vale, por Joe Dornelles Lambert

Que tal uma história daquelas que bem poderia se passar em uma sexta-feira 13 como hoje? O conto “O vale” narra a história de uma bela mulher cujo passado volta para lhe atormentar. Tudo sob um cenário bem conhecido pelos gaúchos. O responsável pela trama é o estudante Joe Dornelles Lambert.

Além de escrever contos como o abaixo, Joe se aventura em fotografia, poesia, até letras de músicas. Desde criança, ele já demonstrava habilidades artísticas. Foi cedo também que ele passou a se dedicar a uma atividade bem fora do comum que é a pesquisa genealógica e histórica na sua cidade natal. Já é reconhecido pelo seu trabalho na área e pretende lançar um livro que está em fase de produção. Ele já assina a co-autoria do Dicionário de Língua Portuguesa-Rênana, uma obra coletiva de vários descendentes dos imigrantes renanos do Espírito Santo, com participação de alguns gaúchos, organizada por André Kuster-Cid.

Descubra abaixo o que aconteceu com a moça que morava no vale e boa leitura. 😀

Contatos do autor:

joedlambert@gmail.com | https://www.facebook.com/joe.d.lambert

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

O vale

Por Joe Dornelles Lambert.

 

Fevereiro de 2013

Rincão dos Lambert, São Francisco de Assis – RS.

 

Acto I:

Havia uma mulher tomando banho em um grande poço, em um rio que corria na entrada do profundo vale em que ela residia, com o filho. Ela era uma mulher de 33 anos, loira, de olhos azuis acinzentados, muito bela… Eram meados de 1923, uma tarde quente em que ela havia ido recolher lenha na ultima faixa de seu campo, do outro lado do rio. Ao sair das águas pode-se ver uma cicatriz em seu rosto esquerdo. Era fina, porém iniciando perto dos olhos só acabava no canto de seus lábios. Para entendermos a origem deste pequeno empecilho na sua beleza, precisamos voltar na mocidade de seus 25 anos.

No forte inverno de 1915 o esposo da mulher, homem pouquíssimo conhecido, que raramente saía, um fruto de uma paixão da então jovem de 15 anos, foi esquentar o corpo com alguns goles de Whisky, na pequena taverna que havia no “centro” da localidade interiorana. Ao voltar para casa, já perto do meio dia, o homem não mais respondia por seus atos e, aquecido com a bebida, adentrou a residência. O filho de nove anos dormia, coisa rara, enquanto a jovem mulher preparava o almoço na cozinha.

O homem, fora de si, viu no vidro quebrado da janela um motivo para a discussão, e no sono do garoto, um motivo para culpá-lo de o problema ainda não ter sido resolvido. Por de trás de seus soluços dava para distinguir o gutural “Porco Dio, Barbaridade!” – herança de seus pais, imigrantes italianos.

A mulher, vendo o perigo, sabendo que o homem já havia arrumado problemas sob efeito do álcool outras vezes antes, não pensou duas vezes antes de por em mãos o revólver que havia em cima do armário. O contra-ataque do italiano foi sacar a faca que carregava em sua cintura e rapidamente atingir a mulher, antes mesmo de ela ter conseguido se virar e engatilhar a arma em punhos, que agora jazia longe dela, no outro lado da cozinha. O golpe do italiano pegou de raspão, causando um corte extenso. A mulher, enquanto caia ao chão, levou a mão em cima do balcão e deu de mão no cutelo com o qual fatiava a carne e, já no chão, lançou-o contra o esposo. O artefato cravou no ombro do moribundo que cambaleou para fora da casa, urrando e gemendo.

Acto II:

O homem saiu correndo estrada afora até adentrar no mato. Subiu por uma trilha raramente percorrida que chegava ao cimo das montanhas, donde se via todo o vale. Antes mesmo da metade da trilha o italiano, completamente tonto, tropeça em uma raiz e cai ao chão, por onde rola por alguns metros até bater a cabeça em uma pedra. Pouco tempo depois passou pelo mesmo local o Sr. Brücken, que residia ali perto, em um pequeno rancho. Brücken, médico homeopata que curava as enfermidades da população local, quase diariamente percorria aquela floresta em procura de plantas medicinais. Muitos o consideravam gênio, outros o consideravam louco. Ao ver que o homem jogado era seu vizinho Giovanni Francesco Dellorzo, Brücken o recolheu, mesmo sabendo da opinião que o italiano tinha para consigo. Lá o homem foi curado de seus ferimentos em poucos dias. Porém, antes disso, os dois já haviam se dado conta de algo: o italiano perdera a memória quando batera a cabeça na pedra.

Dada as circunstâncias em que Dellorzo foi encontrado e ao seu histórico perturbador, o homeopata já desconfiara do que havia acontecido: o italiano chegou bêbado em casa e teve uma feia briga com a mulher. Pensou que dessa vez nada poderia ser resolvido, e, que, se a mulher por ali não aparecesse, atrás do marido beberrão, deixaria o assunto nas entrelinhas e criaria alguma história falsa ao novo hóspede.

Sr. Brücken era um homem sozinho no mundo, somente ele e suas plantas e livros. Ele tinha bons fundos monetários, porém o instinto relaxado o fazia ter aquela vida simples. Que mal teria em ter Dellorzo como empregado? Passaram-se os anos e Dellorzo, sem saber de seu passado horrível, se consolidou como ajudante e aprendiz de Brücken. Nessa vida, ele aprendeu muitas coisas e virtudes que o transformaram em um outro homem.

Acto III:

Katerina Mavr Yarkiyezemli agora estava na beira do rio, secando-se. Vestiu então o vestido branco, subiu na carroça puxada por dois cavalos de médio porte, e seguiu pela estrada, adentrando o mato, em direção á sua casa. Em meio à floresta, numa subida, a carroça que desde sempre rangia veio a quebrar uma das rodas.

Cinco minutos depois, a mulher já havia desistido de tentar consertar a carroça, cheia de lenha em cima. Ela, sem ferramentas e sozinha, sentou-se ao chão quase chorando. Neste momento cruza pelo local um homem montado em um belo cavalo pintado. Ele desce do cavalo e oferece para levar a mulher até sua casa, e que depois voltaria ao local com as ferramentas necessárias e arrumaria a carroça. A luz solar que entrava por entre as folhas das árvores mostraram seus olhos alvos e também uma grande cicatriz em seu lindo rosto. O homem hesitou com a imagem, porém ainda continuava encantado com a beleza da mulher. Algo incomodou Katerina, um sentido aguçado indecifrável, porém ela admitiu que estava necessitando muito de ajuda, tendo aceitado a proposta.

Um quilômetro e meio adiante, no fim do vale, estava a casa de Katerina Yarkiyezemli. A anfitriã entrou na escura residência e preparou um café para o errante samaritano, que aguardava à sombra de uma frondosa arvore no quintal. O desconhecido homem, encantado com a mulher, percebeu que ela era sozinha, sem ninguém ali naquele lugar. O homem nunca havia se sentido tão bem desde que fora salvo pelo velho Brücken, já falecido. Contou á ela a história de sua vida, ou ao menos o que Brücken o havia lhe inventado para esconder o real caminho percorrido por ele até ser encontrado naquela floresta, com uma pedra na cabeça e um cutelo no ombro. Ele estava seguro, somente por uma coisa, o que o velho Brücken havia lhe sussurrado antes de dar o último suspiro: “Procure abaixo da montanha”.

Katerina passou de branca a vermelha em questão de segundos, ao se dar conta de quem estava relatando essa história ali em sua frente, ali, em sua casa, oito anos depois. Como não adivinhara antes! Talvez pelo diferente corte de cabelo, umas marcas a mais no rosto, etc, mas aqueles olhos dele… Aqueles olhos verdes e impactantes eram inconfundíveis.

Acto final:

Após o café, voltam os dois para a floresta, onde jaz a carroça quebrada. Com as ferramentas trazidas da casa de Katerina, Dellorzo conserta a carroça da bela russa. Quando este se vira para guardar as ferramentas na carroça, Katerina Mavr Yarkiyezemli saca seu revólver, aquele mesmo do início da história, e num só suspiro diz:

– Você de novo não, Giovanni Francesco Dellorzo!

Os pássaros voam dos galhos das arvores assustados com os três estampidos altos, secos e contínuos. Yarkiyezemli guarda na cintura seu revolver, sobe na carroça, e volta para seu solitário rancho.

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