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Conto: As sorridentes, por Matheus Ribeiro Santi

Assim que eu vi o Matheus, soube que ele é um escritor. E um futuro jornalista. O Matheus Ribeiro Santi, ou Mr. Santi, é estudante de jornalismo da UFSM, como um dia eu fui. Fora isso, ele diz que ser ele mesmo, com todos os pesos e delícias, já ocupa boa parte do seu tempo.

Além dos textos jornalísticos, Matheus se aventura pela literatura de poemas a contos. Tem aquela pretensão de publicar um romance no futuro.  Mas não só isso, também uma coletânea de poesias e outra de crônicas e contos. Se depender dele, teremos várias aquisições novas para a nossa estante.

Essa gana toda de escrever é explicada por Matheus com a frase de Fernando Pessoa: “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”. – Luciana Minuzzi.

Contatos do autor: m.ribeirosanti@yahoo.com.br / matheusrsanti@gmail.com | Facebook | Twitter | Blog

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

As Sorridentes

Por Matheus  Ribeiro Santi

Um sorriso me atacou enquanto navegava pela internet. Rolava insistentemente página abaixo, sem prestar muita atenção ao que passava. De repente, um relance. Percebo. Paro. Volto. Não era um sorriso. Ou era? Para minha surpresa, era alguém que conheço bem. Clico na foto e ela se expande. Seu rosto é tudo em minha tela.

Aquele enigma me puxava e não queria soltar. Vencido, passo a prestar atenção nos seus olhos, cabelos, nariz, boca. Será isso um sorriso? Fito seus cabelos, negros, lisos, repartidos ao meio. Seus olhos grandes, negros, me devolvem o olhar direto com um brilho diferente de tudo que antes neles vi; e não expressam nada, e ao mesmo tempo expressam tudo; seus olhos gritavam e esperneavam silenciando o que sempre diziam; calados, clamavam por atenção.

Seu nariz pequenino e levemente arrebitado compunha o todo com perfeição. E, finalmente, a boca. Será isso um sorriso? Seus lábios pareciam maiores que minhas recordações. Rosados. Só Deus conhece perfeitamente a esses lábios. E apesar de nunca ter prestado muita atenção neles, eram extremamente familiares e totalmente diferentes. À extrema esquerda uma leve curvatura, discreta, sem expressões, nenhuma marca na pele. Não era um sorriso. Ou era?

Imediatamente minha mente é levada a outro sorriso. Tão enigmático quanto. Mais problemático que o primeiro. Seu rosto é parecido. Suas expressões. Os cabelos castanhos, cacheados, repartidos ao meio. Os olhos relativamente pequenos, castanho-claro, quase mel, fogem do meu olhar, ignoram-me, percebem o que está ao meu lado. Não, eles não me seguem, como alguns dizem. Sim, eles fogem de mim, quase que forçosamente. Fita ao meu lado para não fitar a mim. Leves, suaves. Brilham um brilho apaixonado. E se negam, numa brincadeira infantil e graciosa, a me atender.

Seu nariz não é pequenino nem arrebitado, ainda assim, compõe o todo com perfeição. E sua boca. Será isso um sorriso? Seus lábios são finos. A boca, pequena. Pálidos. Só Deus sabe perfeitamente o que querem dizer esses lábios. Nunca prestei muita atenção neles. Nunca os conheci. Nem me seria possível fazê-lo. Eles estão levemente curvados. A sombra o afirma e a percepção torna cada vez mais evidente. É um sorriso. Ou não é?

Voltando-me a mim, percebo que não sei o que elas querem dizer. Nem a que conheço, nem a que nunca conhecerei. Na verdade, não sei nem se querem dizer algo. Talvez quisessem sorrir, ou não sorrir… A indecisão resultou no retrato. E o que querem dizer, se querem dizer, eu não sei. Só sei que “as flores são tão contraditórias!”, em concordância a um desconhecido e pequeno príncipe.

Muitos discutem a segunda. Poucos conhecem a primeira. E as discussões resumem-se a técnicas e cores, estilos e resultados, mensagens e programas de computador. E quanto ao que não é visto? Quanto à flor do retrato? Quanto à segunda, não há nada que eu possa fazer. Ela pertence à arte e está sob o domínio dos arteiros.

Quanto à primeira, há muito que eu posso fazer. Ela não pertence a ninguém e, se eu dedicar tempo a ela, se tornará única no mundo, em semelhança à segunda. Mas talvez eu não precise saber ou entender, talvez compreender seja suficiente. Prestar atenção ao que vejo e ao que não vejo. Perceber a ternura e as sutilezas. Talvez eu já não seja tão jovem e saiba amá-la. Eu quero ouvir seus cabelos e seu nariz. Quero ouvir o brilho e vivacidade dos seus olhos. Quero ouvir o doce som de seus lábios quando sorri… E quando não sorri…

Apêndice

– Vamos! Olhe para mim, Lisa! – disse eu, enlevado, ainda com os resquícios do riso na boca.

– Não. – ela disse olhando para minha direita, ainda com o sorriso nos lábios.

– Desse jeito eu não termino seu retrato nunca! – não era uma verdadeira reclamação. Não queria terminar o retrato se isso significasse tê-la por perto para sempre.

– Ora, este problema não é meu. – sim, ela partilhava de meus sentimentos.

– Como assim? O retrato é seu!

– Mas a obra é sua. É o seu nome.

– Ah, então será assim? – disse eu em tom jocoso. – Muito bem. Durante nossas sessões você não poderá olhar para mim. Pintá-la-ei olhando ao lado.

– Como assim?

– Já que você se recusa a olhar para mim e, como bem disse, é minha obra, lhe retratarei com o olhar direcionado a outro ponto. – expliquei num tom terno, que não permitisse maus entendidos.

– Então não poderei olhar para você em momento algum? – perguntou entendendo meu objetivo.

– Exatamente, minha querida Lisa. Terá de se contentar com rápidos relances furtivos enquanto trabalhamos. – provoquei com um sorriso malicioso.

– Ah, não, Leo! Não faça isso. Não vou aguentar esse tempo todo sem lhe olhar. – percebi a verdade por trás da brincadeira. A graça, a ternura, o sentimento com que me confessava.

– Tarde demais. Já comecei a pintura. – gostei da brincadeira. Além do mais, acho que esse olhar dará um tom interessante à obra. – Agora fique séria, mia gioconda.

– Esse apelido que você me deu prova que não será tarefa fácil…

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