Coluna: Para repensar a poética, por J. Rowstock

*Este conto faz parte da Revista Cornucopia Vacua #00.

Josué Rowstock, estudante de Letras na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é quem encabeça o Febre de Rato, projeto independente que injeta literatura todos os dias na linha de tempo do Facebook. Além disso, escreve poesias, crônicas e romances publicados nos jornais, em livros e até nos postes pela rua. Já tive o prazer de prefaciar o seu livro De Tudo e Mais um Pouco, lançado em 2013. Reproduzo um parágrafo aqui, pois ele resume o que penso sobre a obra desse poeta marginal: “Um bom escritor é um bom tradutor do mundo e J. Rowstock é um bom escritor. E escreve em vários lugares: nestas páginas, de modo virtual, no poste pra todo mundo ver. Não se pode fugir do que esse cara tem a dizer justamente porque ele fala do nosso cotidiano. Expõe nossas vísceras com um tapa de luva.”

Site | Febre de Rato

14.09.12 - Para Repensar a Poética_JRowstock

Para repensar a Poética

Por J.Rowstock

Tudo bem gostar de livros de poesia tradicionais, eu como escritor e leitor também prefiro a maneira habitual de degustação poética literária. Entretanto, acredito que deveríamos repensar as formas de fazer poesia, de modo que estamos vivenciando uma época onde o consumo para com a poesia é cada vez mais baixo. Livros de poesia vendem tão pouco que hoje em dia as editoras só lançam quem já têm um público realmente fiel ou as já reedições de poetas consagrados de outrora.

Uma vez que a poética está um tanto quebrada ao meio, é imperativo salvar este modelo de escrita repensando a poesia. De modo que se faz necessários termos de volta aquela poesia cantada como em outros tempos, pois de fato esta poesia  que hoje temos e que estamos lendo de voz baixa e impressa apenas num papel branco ou pardo até poderá conseguir manter seus leitores fiéis, porém não ganhará mais do que isso, já que os novos leitores que mais estão acostumados a televisão e ao computador não sentirão o tesão necessário para apreciar a boa poesia.

Talvez, seja o modelo corriqueiro de lançamento de livros de poesia que faz a poética perder um tanto de leitores e estagnar a produção. De fato, temos tão bons poetas como nunca tivemos, mas para fazer essa nova geração deslanchar é preciso pensar novas formas de fazer poesia e de vender poesia.

Portanto, é imperativo buscarmos novidade se quisermos somar e multiplicar leitores de poesia no Brasil e no mundo. Repensar a poética que vêm sendo feita é preciso…

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Conto: o último, por Luciana Minuzzi

Como não pude postar na sexta-feira, trago um conto inédito para esta segunda. A autoria do texto é desta que vos fala. Espero que gostem. 🙂

Fora isso, quero contar que a produção da revista impressa está quase finalizada. Ainda neste mês, a Cornucopia Vacua estará nas suas mãos. Fiquem ligados.

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

O último

Por Luciana Minuzzi

Ele desabotoou a calça, abriu o zíper e a barriga flácida inflou liberta do cárcere. Subiu uma nuvem de urina e bolas peludas suadas que fez meu nariz coçar. O filho da puta disse:

– Tô com pressa, gostosona.

E ficou ali, de pé. Sorriu arregaçado e esperou que eu lhe esvaziasse o saco.  Era daquele tipo que fica igual a uma múmia e espera que eu faça tudo. Respirei fundo e repeti para mim mesma:

– Esse vai ser o último.

Esse pensamento foi tão reconfortante que me escapou um sorriso. Comecei o trabalho. Coordenei respiração e ânsia de vômito. Tenho que convencer o cara e a mim que gosto disso. Tem uns que preferem que a gente faça cara de dor, até chore e isso eu acho bem mais fácil de fazer, é só deixar transbordar o que sinto no momento. Para não pirar, imagino que aquele pedaço de carne na minha boca é um picolé que traz alívio nos dias bem quentes. Queria voltar aos meus oito anos quando a maior preocupação era quando o sorveteiro iria passar e eu teria esse momento doce.

Nessas horas, meus olhos sempre recaem na Nossa Senhora em cima da mesinha. Era da minha mãe e hoje fica parcialmente escondida atrás de uma vasilha com camisinhas coloridas. Esses plásticos de todas as cores são a coisa mais alegre e brilhante do quarto. Minha mãe sempre quis que eu fizesse faculdade, só não sabia o quanto isso ia custar. A vida em uma cidade maior, as prestações, o aluguel, tudo pago pelos bons homens da cidade sempre dispostos a meter o pau em algum buraco. Imagino-a em meio às compotas que vende para os turistas. Que continue envolta por doces e nunca imagine nem por um segundo o que a sua tochter faz para garantir que o diploma enfeite a sua parede um dia.

Não demorou muito e ele terminou, desperdiçando uns milhares de espermatozoides no chão. Pagou só por aquilo, então já está amassando a pelanca da barriga com o cinto de couro fajuto. Será que tinha alguém esperando por ele em casa? Vejo-a com nitidez na minha mente: os braços cruzados na janela, olhar distante de quem sabe o que o maldito está fazendo, mas não quer acreditar… Os olhos negros tomados pelo vazio do desamor.

Peguei as notas amassadas e comecei a me limpar. Nunca parece que uso sabão suficiente. Mal tive tempo de limpar a meleca branca no chão e recebi uma mensagem: “Tô subindo”.

Respirei fundo e repeti para mim mesma:

– Esse vai ser o último.

Parceria: Antes do Cedo, por Cesar Domity

*Este conto faz parte da Revista Cornucopia Vacua #00.

Na primeira vez que vi o Cesar, ele cantava e tocava violão. Mais tarde, tive em mãos o seu segundo livro e primeiro publicado, Memórias de Veludo, lançado em 2010. Ele é mesmo um multiartista e posta parte do seu trabalho no Camada Abstracional, feito em parceria com Vinícius Faria.

E-mail: cesar.domity@outlook.com | Camada Abstracional

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Antes do Cedo

Por Cesar Domity

Já é antes do cedo. ‘Desperta, Fernanda’. Escolheria o corpinho. ‘Corpinho? Não use o desuso, menina’. Não “que este não lhe cabe”, disse a mãe. Juvenil, juvenil. ‘Este sol que me deixa juvenil’.

O tempo cobre de gracejos e gotículas as roseiras lá fora. Nada serve. Nem corpinho, nem calça, tampouco os minutos. ‘Para quem são estes minutos, rapariga?’. Não a ofenda, reflexo. Fernanda está sempre presa na eterna Segunda de Aureliano. Há sempre trabalho e roupas íntimas que não lhe servem.

Adulalções dispensáveis dirigidas com o combustível do moralismo. ‘Estás bonita, Fernanda’, ‘Emagreceste, Fernanda’. “Dê Schopenhauer para eles, menina. Dê Voltaire, dê um pessimismo que vele suas moralidades”. Não… ‘Obrigada, Obrigada’. “Obrigada estarás à hipocrisia, meu amor”, prosseguia Augusto. Deveria tê-lo sugado a alma, pensa ela. Deveria ter livrado-se de deus, tal qual ele. Assim como viajado para Portugal no colegial e feito a dieta que dona Agda lhe indicou:

– Só proteína, minha filha.

– Mas o que é proteína, dona Agda?

– Ah, Fernanda! Proteína… Tu sabes.

Não sabia. Nunca soube e, a isto, atribuiu seu anti-sucesso. Anti? Não… Estava muito bem. Vivia bem com a mãe. ‘Para que sair pintada assim, menina?’. Assemelhava-se a um palhaço. ‘Deixe-me, mãe. Tampouco pareço um’. Quiçá não parecesse, mas ao menos não metia medo nas crianças.

Que demonstrasse, no mínimo, calma por estas sobrancelhas. “Este elevador sempre quebra”, dizia o zelador do prédio. ‘E necessitava da minha presença dentro?’, pensou ela. Nem calça, nem elevador, nem sobrancelhas ‘que não fiz esta manhã’. Ele insistia que ela não se encabulasse, porém, não havia resistência perante à humilhação. Foram muitos anos anti-horários até o fim dos pilhas, Fernanda.

Agarrava-se forçosamente à influência dos zodíacos.

– Largue as racionalizações, amor.

Então, por que fostes embora, Augusto? Deixou Fernanda de camisola com um bilhete no espelho.

Desintegrando-se agora, realidade? Logo quando Fernanda consternava-se diante da existência. Diante do reflexo? Por que foste nascer com estas feições de uso? Há mãos por todo o crânio de Fernanda. ‘És airosa, és esbelta’, insistiam as mãos. ‘Por que me trais como um personagem de Shakespeare, reflexo?’. Não obstante aos apelos, dava sucessão aos aspectos da existência linearmente. Deixou-a quando grande em si mesma. ‘Ele foi para capital, filha?’. Não sabia. Ela mesma só desejava a contradição da existência. ‘Eu preciso de mais, Fernanda’. ‘E eu não sei, Augusto. Não sou bruxa. Vou deitar’. E deitou no sofá.

Parceria: Sou Verso, por Mara Garin

*Este poema faz parte da Revista Cornucopia Vacua #00.

Ela passa muita motivação para quem está em volta, inclusive para mim. Por isso, não poderia deixá-la fora desta primeira edição. A Mara Garin passa uma energia tão boa. Se você mantiver aberto o coração enquanto lê a sua poesia, vai sentir algo delicioso lhe invadir. Além de ter toda essa mágica, a Mara tem uma extensa carreira literária. Sob o pseudônimo de Amanda ou Aram Nirag, ela já venceu o Concurso Paulo Salzano de Poesias, em 2011, em segundo lugar, com poema Acordei, e na edição 2014, primeiro lugar com Manias. Em Cachoeira do Sul, cidade onde reside e abraçou como sua, é professora de Artes e Tecnóloga em Gestão Pública. Lá ela tem seus poemas publicados no jornal da Região desde 1992, e nas coletâneas Poetas do Vale, nas edições VII e VIII (2009 e 2011). Aqui em Santa Maria, fez parte da 3ª Edição da Revista Bang Literário, com a poesia Alma e Coração, em2013. Ainda sobra fôlego para realizar trabalho voluntário de oficinas de Poemas, nas Escolas Públicas e Particulares da Região.

Reescrevendo os Sonhos | Perfil maragarin@gmail.com

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Sou Verso

Por Mara Garin

Sou existência dentro do verso

Minotauro no labirinto da palavra

Uma criatura de mil faces

Poema disperso, diverso e controverso…

Escrevo o que vi, vivi e sofri

Que amei, plantei e inventei…

Te confundo na minha procura

Busca do sonho errante

Tua boca na nossa loucura…

Ante o caminho que interessa

É a permanencia do vazio

A estrada da emoção deserta…

Não entendo a conformidade

O canto sem ter saudade

A tua poesia incerta…

Sou existência dentro do verso

Eternidade no teu universo

Inteiro atrás desta porta!

Conto: Nascida em Sangue, por Luciana Minuzzi

*Este conto faz parte da Revista Cornucopia Vacua #00.

Nada melhor para vocês me conhecerem do que um texto auto-biográfico. Fora essa passagem inicial da minha vida descrita no texto abaixo, posso contar para vocês que sou jornalista e acadêmica de produção editorial pela UFSM. Além desses títulos, sou filha da dona Jurema (que é personagem desse conto e da minha vida) e gateira assumida. Aliás, gosto de todo tipo de bicho, até insetos. Aprendi isso com a minha avó. Espero que gostem da minha reestreia como contista – escrevo desde pequena, mas isso é assunto pra outro conto.

Blog com alguns trabalhos meus como jornalista: http://luminozza.wordpress.com/

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Nascida em sangue

Por Luciana Minuzzi

Tarde de um bafo quente que só faz em um buraco como essa cidade. Por isso, apelidaram aquele vale como Garganta do Diabo. O próprio deve soprar esse calor pra cá. Enquanto a minha mãe procurava algum conforto sentada perto da janela, se abanava como podia e eu nadava tranquila no seu líquido amniótico. Só o de sempre passava na televisão, a vó assava pão na cozinha, uma passada de mão na barriga e o pensamento em se a filha seria como as crianças que corriam pela rua.

Sentadas na varanda da casa da frente, as meninas dos vizinhos batiam as mãos em algum tipo novo de adoleta. Não eram tão pequenas para se entreter com isso. Estavam naquela idade em que os meninos viram assunto e é preciso se destacar.

“Ah, isso é muito chato de brincar. Vem aqui que  vou te mostrar uma coisa muito massa que o meu pai tem.”

Entraram de fininho no quarto em que o pai dormia. Era policial militar e fazia rondas noturnas para completar o orçamento. Pegaram com o maior cuidado o seu 38 brilhante que ele sempre encerava  com uma flanelinha.

“Bang! Bang! Hahaha”

“Pára, guria. Melhor devolver pro meu  pai.”

“Ah, não vai dar nada, só se eu apontasse pra ti assim e puxass…”

BANG! Um tiro de verdade pintou de vermelho o pescoço da menina que caiu descordada. Barulho suficiente para acordar o pai da garota, que desolado, correu com a filha nos braços, banhada em sangue.

“ALGUÉM ME AJUDA PELO AMOR DE DEUS!”

A visão do homem com a filha mole e ensanguentada no colo fez a minha mãe sair daquele estado de  letargia provocado pelo calor. Pelo corpo quente, caminhou o suor frio. Farejei o medo, o sangue, o drama e também despertei do meu nado tranquilo. Ah, eu queria chegar logo nesse mundo e conhecer esses seres capazes de criar uma arma que mata outros seres. Nasci em sangue e pelo sangue. Menos de 24h depois, dei meu primeiro choro pela menina que sempre iria carregar a cicatriz daquela tarde que me fez acordar.

Até onde posso contar, minha vida seguiu assim, bem como foi nas horas que antecederam a minha chegada. Um tornado de desastres soprado pelo próprio Diabo direto da sua garganta.

Apresentação

Cornupina vai rodar por aí e esvaziar a sua cornucópia.
Cornupina vai rodar por aí e esvaziar a sua cornucópia.

Uma cornucópia pode ter vários significados. Alguém pode lembrar-se de ter visto pintada em um pano de prato na cozinha. Quem estuda mitologia greco-romana, vai explicar melhor do que eu, mas é um símbolo de abundância. O passar do tempo agregou significados e ela virou símbolo das ciências econômicas. Também tem relação com alguns otimistas quanto à fartura no futuro. Pode ainda ser um lugar em Wisconsin ou uma música do Black Sabbath de 72 – admito que essa última seja a que mais significa para mim. Não importa o que vem a mente, mas que esse vaso em forma de chifre com coisas dentro nos faz pensar. Ao menos, me fez. Tanto que o pensamento cresceu e virou revista e blog. Mesmo que o vazio possa representar pessimismo, acredito que é uma oportunidade de colocar ali toda fartura que se imaginar. Pra mim, fartura é ver a profusão de palavras formarem frases e essas frases contarem histórias. Aproveitem essa cornucópia de histórias que os brindo junto com bons amigos e familiares que colaboraram para que ela acontecesse. Ao longo dessas páginas, letras de gente que me ajudou de alguma forma a ter coragem e mostrar o que escrevo para o mundo. Ao final, quero que você me diga: o que quer colocar na sua cornucópia?

Envie seu material, dúvida ou comentário para: cornucopiavacua@gmail.com

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Confira meus outros blogs: blog com trabalhos profissionais blog sobre o meu cotidiano

Em breve, detalhes sobre o lançamento da revista impressa. Fique ligado. 🙂

 

 

Revista/blog que reúne contos, colunas e entrevistas sobre o mundo da literatura.