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Crônica: Sobre a humanidade, por Simone Machado

O clima de eleições inspirou a crônica de hoje. A responsável pelo texto é Simone Machado, estudante de Letras da UFSM. Nas linhas que seguem, a autora busca estimular a reflexão dos leitores acerca da igualdade entre os humanos.

Além das crônicas, Simone escreve poemas e contos. Isso foi desde sempre. Ela contou que aprendeu a ler muito cedo e inventava histórias antes mesmo de se conhecer como gente. A sua incursão no mundo da literatura passou a ficar séria no ensino médio, quando escreveu fanfictions, que são histórias criadas por fãs em cima das oficiais de séries, livros, entre outros.

Apesar de publicar o seu trabalho a pouco tempo, ela já tem um plano bem formado: “Pretendo escrever livros para jovens e adultos, misturando a realidade e a magia e mostrando que é possível falar de coisas sérias (como política, meio ambiente…) com jovens utilizando a criatividade e ambientando histórias no cenário brasileiro, utilizando da nossa cultura (o que ainda é visto com certo preconceito por muitas pessoas).”

Torcemos para que o plano de Simone dê certo. 🙂  – Luciana Minuzzi.

Contatos da autora: siihnrock@gmail.com | Facebook | Diário da Bagunça  | Página no Facebook 

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Sobre a humanidade

Por Simone Machado

Eu evitei escrever sobre isso, mas discursos de candidatos à presidência me trouxeram a este ponto.
Falamos tanto em igualdade entre homens e mulheres e temos pouco resultado, vou tentar uma nova abordagem: vamos falar sobre igualdade entre seres humanos.
Todos temos a mesma base, nascemos da mesma forma, nos desenvolvemos de formas bem semelhantes (eu estou falando dos nossos corpos), mas nossas mentes são influenciadas de diferentes formas, levando-nos a desenvolver posicionamentos bem distintos frente às mesmas causas.
Nosso mundo não precisa da existência de opressores e oprimidos. Nenhum de nós precisa.
Infelizmente, sempre que falo em igualdade de gêneros algum homem diz: “ir pro quartel mulher não quer, né?!”
Meus senhores, assim como acredito na igualdade de gêneros, acredito que ninguém, nem homens, nem mulheres devam ser obrigados a ir para quartel algum. Considero essa obrigação uma infração ao artigo 5º da Constituição Federal e, como prova, o exponho:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

Artigo completo disponível em: http://www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/con1988_05.10.1988/art_5_.shtm

Acredito que o respeito ao próximo (regra presente nas suas bíblias, também) é imprescindível. Entretanto, não vemos muito disso por aí. Respeito não é algo que se vende na farmácia, não se distribui como santinho de campanha eleitoral, não se dá de presente de aniversário, respeito é algo que nos é ensinado, algo que cultivamos durante toda a nossa vida.
Respeitar não é firmar um contrato para que existam termos. Não vou respeitar aquela pessoa se e somente se ela respeitar a si mesma. Vou respeitar aquela pessoa sempre, em qualquer momento, em qualquer situação, mesmo que ela venha a ferir a mim. Nada, repito: nada, me dá o direito de tirar-lhe a respeitabilidade, o direito à uma vida da forma que ela escolher. Dignidade é um conceito pré-estabelecido para que nos sintamos superiores.
Não existe superioridade. Existimos nós. Existimos.
Por quanto tempo se continuarmos com esse ódio por tudo o que nos é estranho?
Como sugerido por Emma Watson:

“Se não eu, então quem?
Se não agora, então quando?”

Que sejamos iguais enquanto humanos e nos doutrinemos ao respeito, à garantia de que outros seres possam viver suas vidas sem se preocuparem com o que pensamos deles, afinal, pensamento é subjetividade e esta, meus queridos e queridas, não serve como definição para nossas vidas.

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Conto: Pé pelado, por Luciana Minuzzi

Hoje tem um conto desta editora que vos fala. E ilustrado pelo Guilherme Hollweg, mais conhecido como Guiga. Quando não está desenhando ou lendo HQs, o Guilherme trabalha como programador e estuda Engenharia Elétrica na UFSM. Ele contou que sempre se interessou muito por desenhar e passou a refinar a sua arte quando integrou o Núcleo de Quadrinhistas Quadrinhos S.A., em meados de 2006. O trabalho dele já foi publicado em várias revistas Quadrante X, tiras semanais no Jornal A Razão e em páginas e sites da área dos quadrinhos. Confiram os contatos dele abaixo e vejam mais material dele.

Contatos do ilustrador Guilherme Hollweg:  guilhermehollweg@hotmail.com | Facebook  | Site

Quanto a mim, como já falei em outras ocasiões, sou jornalista e acadêmica de produção editorial na UFSM. Também trabalho como roteirista e dou oficinas de criação textual (podem me chamar pra trabalhos. He, he). Esse conto é de um tema mais leve, mas tenho escrito mais voltada para monstros e obscuridades do terror que é o objeto da minha pesquisa atual. Em breve, vou postar algo mais assombroso pra vocês.  – Luciana Minuzzi.

Meus contatos: minuzziluciana@gmail.comBlog

Ilustração: Guilherme Hollweg.

Ilustração: Guilherme Hollweg.

Pé pelado

Por Luciana Minuzzi

Você já deve ter esbarrado nela por aí. Ela é daquele tipo de pessoa que a gente quase não vê de tanto que se mescla no cardume das ruas. É mãe de três guris. O mais velho é o Bernardo. Os outros dois são os gêmeos Pedro e Gabriel, nomes escolhidos para não combinarem propositalmente. Falando em nome, o dela é Maria, só Maria mesmo. Aliás, toda vez que vai preencher um cadastro, conhecer alguém novo ou coisa assim, ela tem que dizer:

“Maria, só Maria mesmo.”

A mãe dela dizia que a batizou assim para ninguém esquecer ou confundir e Maria seguiu o mesmo princípio para nomear os filhos, sem nada de muitos “ys” e nomes compostos ou parecidos. Isso tudo porque a mãe de Maria se chama Antonina Josephina Ângela e esses três nomes complicaram muito a vida dela. Quando casou, ainda teve que acrescentar o sobrenome do marido: Fitzroy.

Além de trabalhar como mãe todos os dias sem folga, Maria é secretária do Doutor Tavares – que faz questão de ser chamado pelo sobrenome precedido do título de doutor. Ele é o verdadeiro baixinho invocado e carrancudo. Os frisos da testa parecem não ter fim visto a falta de cabelo na parte frontal da sua cabeça. Apesar da aspereza, é um bom dentista e justo com Maria.

Com um chefe tão exigente, os filhos, os dois cachorros e o gato, ela precisa estar desperta e disposta antes mesmo do Sol dar as caras. Mas naquele dia, ela não levantou com as galinhas. A cama estava mais convidativa do que o usual. Era o primeiro dia daquela semana em que os pingos de chuva na calha não a incomodaram durante a noite e um ar quente soprava pelas frestas da janela.

Os cinco minutinhos de soneca viraram um atraso de meia hora. Foi uma correria daquelas. Acordou os meninos, fez café, engoliu um pedaço de pão, cuidou dos cachorros, deu comida pro gato, arrumou ali, ajeitou aqui, beijou os meninos na testa e mandou para a escola. Abanou para os meninos que saíram pelo portão e espiou o Sol tímido por detrás das nuvens. O gato rolava e ronronava, brincando com o chinelo de Maria. Dona Mercedes, uma senhorinha que morava na casa de trás, aproveitou para estender a roupa úmida.

Suspirou… E, por um minuto, pareceu que o tempo havia parado.

O tic-tac do relógio a fez voltar para o ritmo e correr para chegar a tempo e não ouvir bronca do Doutor Tavares. Foi um vendaval tão grande que nem deu tempo de ligar o radinho companheiro para conferir a previsão do tempo. Maria olhou para as parcas roupas no armário. Muitas feitas pela mãe, ou usadas da irmã. Ela não gostava de se enfeitar, apesar de estar sempre bem asseada. Aproveitou que não viu sinal de chuva para colocar a sapatilha amarelinha. Foi um alívio depois de tantos dias usando o mesmo sapato fechado para não molhar os pés.

Quando pequena, a mãe sempre a fazia usar meias, pois acreditava que a mulher seria mais fértil mantendo os pés sempre quentes. No frio e no calor, Maria e a irmã Janice sempre estavam de meias. No inverno, com botinhas, e no verão, com chinelos de dedo. A crendice parece ter surtido efeito já que a dona Antonina Josephina Ângela é uma feliz avó de nove netos.

“Que bom poder deixar meu pé pelado”, pensou Maria.

Ao botar o pé para fora de casa, sentiu os pingos escorrerem pelos óculos. A chuva fria se misturava com o suor da caminhada rápida. Chegou a tempo de disputar um espaço sob a aba da parada de ônibus, mas foi empurrada para fora por um cara grande e bem mal encarado que chegou depois. Maria tentou proteger o cabelo bem penteado com a bolsa e desejou que o ônibus chegasse logo. O pedido foi atendido. Como dizem para ter cuidado com o que se pede, Maria se arrependeu prontamente. A roda do ônibus passou por cima de uma poça que mais parecia com a piscina de 1000 litros em que os filhos passavam o verão.

Os pés quase desnudos foram molhados e ela saltou para trás. O susto não a parou, no entanto, a sensação da água gelada misturada com terra entre seus dedos era boa, ela não conseguia explicar, nem entender. Só sentir. Os pés ficaram inquietos, começaram a se mover um para cada lado e ela estava sapateando como se fosse a própria Ginger Rogers em um ato com Fred Astaire. Enquanto olhava para os pés sem entender, as pernas e o quadril foram se contagiando e ela se sentia mais solta do que um dançarino de axé em pleno carnaval. Até mesmo o cara mal-encarado do ponto soltou a expressão dura e os olhos brilharam. A dança parecia um número da Broadway.

Em seguida, os braços e a cabeça de Maria entraram no compasso daquela música imaginária que parecia conter todos os ritmos. Pulou de uma poça a outra, sem parar. Rodopiou, sambou e rebolou como se tivesse sido invadida por todos os dançarinos de um festival internacional de dança. As pessoas na parada não conseguiram fazer nada a não ser aplaudir aquele espetáculo.

Maria não conseguia parar de sorrir. Ela estava tão alegre quanto cansada, molhada e descabelada. Outro ônibus veio e ela precisou ir. Subiu os degraus ao som dos aplausos. O sorriso não cessava. Estava em êxtase. Foi cantarolando até o consultório do Doutor Tavares que estava impaciente e pronto para despedir a funcionária. Ele não conseguiu. Ao abrir a porta, estava o rosto mais encharcado e feliz que ele havia visto. O sorriso de Maria desfez a carranca de Doutor Tavares que sentiu os pés formigarem e uma vontade enorme e inexplicável de dançar.

Daquele dia em diante, Maria não passava mais despercebida pela multidão. Ela sorria e contagiava qualquer um a sua volta. Dos filhos aos cachorros, da vizinha até o Doutor Tavares, todos se sentiram tocados por aquele acontecimento insólito que fez com que Maria descobrisse uma auto-satisfação escondida como o Sol entre as nuvens. Os pés não ficaram mais escondidos, ficavam sempre à mostra, prontos para bailar. Da próxima vez que você passar por ela na rua, não se esqueça de olhar os pés.

Crônica: (Re) Encontros, por Rafael Pacheco

Mais uma categoria inaugurada aqui na Cornucopia Vacua. Semana passada, Pedro Lago deu início a “Ilustração” com o seu poema ilustrado.  Clique aqui para ler. Hoje, temos a crônica de Rafael Pacheco. Coisa boa ver mais tipos de arte aparecendo por aqui. 😀

Com toques de crítica e ficção, a crônica é a arte de escrever sobre o dia-a-dia. Essa tarefa requer um olhar afiado do escrito. Rafael afirma que não é uma tarefa tão simples como parece. “Além de ter que aperfeiçoar, tem que ter inspiração para sempre tentar algo novo.” Ele fala com a propriedade de alguém que há alguns bons anos alimenta blogs com seus textos.

Rafael  já é um autor premiado, inclusive, dentro da sua área de trabalho e pela sua literatura com prêmios como a publicação no Livro ao Pé da Letra, vencedor de Menção Honrosa no Concurso ao Pé da Letra de 2014/III da Fundação Eny.  Além das crônicas que retratam situações que todos nós vivemos no cotidiano, ele produz conteúdos diversos no Portal Educação e no Notícias Inter. Rafael também atua como Assessor Jurídico Financeiro e de Projetos Sociais da ONG Infância Ação, daqui de Santa Maria, e Mediador e Conciliador Comunitário pela Escola Nacional de Mediação. – Luciana Minuzzi.

Contatos do autor:

rafaelpachecocontato@gmail.com | Twitter | Blog |Blog 2

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

(Re) Encontros

Por Rafael Pacheco

Quem me conhece sabe que tenho uma tremenda dificuldade com (re) encontros.

Mas de repente, sem notificação prévia para amenizar o inevitável a vida nos surpreende não é mesmo?! E encontramos alguém do passado numa hora qualquer dessa vida.

De uns a gente tem até vaga lembrança e alguma dúvida sobre quem seja. E isso demonstra que a pessoa teve pouca ou nenhuma importância para nossos sentimentos.

Às vezes, nem do nome lembramos e aí, o constrangimento se apresenta por inteiro.

Outras vezes um (re) encontro, marca e as sensações que se antecipam já nas vésperas, anunciando fortes emoções.

Quando (re) encontramos alguém que mexe com as entranhas dos nossos sentimentos é grande o esforço para nos mantermos contidos. O tom da conversa e a profundidade do olhar vão mostrar se tudo sucumbiu ao silêncio e à distância, ou se há chance de o passado emendar sua história com o presente ali mesmo, produzindo outro capítulo entre ambos que se encontram.

A ausência não consegue corroer uma amizade selada pelo coração. Assim é o (re) encontro de velhos amigos que logo armam uma festa quando se avistam. O antigo diálogo reinicia como se jamais tivesse sido interrompido e a atualização é tão rápida, que parece que ser feita pelo F5. Ansiosos estão, por compensar todo o tempo que não passaram juntos, embora saibam que haverá uma nova despedida.

Há ainda, (re) encontros que faríamos qualquer coisa para evitar. Dobraríamos a primeira esquina, nos abaixaríamos fingindo amarrar o sapato que não tem cadarço puxaria a gola até as orelhas e o chapéu até cobrir o rosto. Sem falar na hipótese de pegar um jornal emprestado e nele enfiar a cara até que o “perigo” do (re) encontro seja totalmente superado. Mas nada vai impedir que a vida siga seu curso, e talvez logo… logo… aconteça aquele novo/velho (re) encontro.

Para aqueles que já não nos “fecham”, um cumprimento rápido que demonstre civilidade e um adeus, nada mais, isto basta.

Deste modo seguiremos adiante, leves e livres do fardo que carregamos quando nos damos o trabalho de detestar alguém, mesmo que tenhamos razão para fazê-lo.

Saudações aos (RE) Encontros!

Poema e ilustração: Na TV só passa merda – Recuerdos de la mañana, por Pedro Lago.

A inauguração da categoria “Ilustração” aqui na Cornucopia Vacua veio através do traço do Pedro Lago. E começou bem porque o Pedro também tem uma ideia bem alinhada com os propósitos da revista pois acredita que tem muito artista bom por aí que precisa de mais visibilidade.

Mesmo que ele diga que não é desenhista, só um bom enganador, eu fiquei encantada com o trabalho dele e acredito que vocês também vão ficar. O Pedro mistura texturas digitais ou de revistas com rabiscos precisos e instigantes que saem da ponta do seu lápis. Junto a isso, vêm as palavras para dar forma ao pensamento e sentimento ilustrado.  Além de fazer essa “ilustração conceitual de guerrilha” como o mesmo define, ele é publicitário, outra arte que mexe com imagens e palavras.

O gosto pelas artes veio cedo com os quadrinhos e nerdices em geral. Ele se diverte com o início da sua trajetória: “O auge da minha carreira artística talvez tenha sido ajudar minha mãe na configuração da decoração para a festinha de 10 anos do meu irmão mais novo, Francisco. O tema era Dragon Ball Z”. – Luciana Minuzzi.

Contato do autor:

E-mail: pedro.perini@gmail.com | Facebook | Portifólio |  O Pândego 

Imagem: Pedro Lago.
Imagem: Pedro Lago.

Na TV só passa merda – Recuerdos de la mañana

Por Pedro Lago

dependo

do pêndulo

pendente

que pende

pedinte

perigoso

pelo

preço

pago

por mim.

Cobertura do lançamento da Revista Cornucopia Vacua #00

Eu não esperava por toda lindeza que foi este evento. Claro que eu sempre acreditei nesse projeto, mas tentei não criar muitas expectativas. Foi um final de tarde/início de noite muito lindo. Teve muita troca, boas conversas e celebração. O pessoal chegou de mansinho e tomou conta de várias mesas do Café Cristal. O lugar tem mesmo essa característica de agregar as pessoas, e, por isso, escolhi lá como o local de lançamento.

Teve gente que eu nem sabia que acompanhava a revista e tirou um tempo do seu dia para prestigiar e levar a sua. Também teve os queridos de sempre que me ajudaram nessa trajetória. Inclusive, conheci muita gente que eu só via online lá. Os escritores que mandaram materiais ou foram publicados pela revista passaram por lá, e, alguns outros, prometeram tirar os seus escritos da gaveta e enviar. (Vou cobrar, heim?) Senti falta de alguns que não puderam ir, então estou pensando em outros eventos para todos terem acesso à revista física. Estou planejando como distribuir as revistas em algum outro local como uma feira para que vocês tenham outra oportunidade.

Para os apegados ao papel, fiquem ligados na página que vai rolar evento em breve e vocês poderão pegar a sua.

Lembrando que a distribuição da revista é gratuita. Para ajudar nos custos de impressão, vendo alguns adesivos e imãs com temas da revista. Se quiserem, é só pedir. 😉

Ainda não conseguiu a sua Cornucopia Vacua impressa? Calma que é só acessar esse link e conferir o conteúdo da edição #00.

Enquanto isso, vocês podem conferir também todos os textos já postados aqui no blog. Tem coluna, poema, conto. Muita coisa boa.

Tem a sua Cornucopia Vacua  #00 em mãos? Pois aproveita, clica no link e lê a íntegra da entrevista com o Alexandre Carvalho, que é escritor, artista gráfico e jornalista. Acredito que as dicas e a trajetória dele incentivarão os escritores como me incentivaram. Aproveitem.

Só posso agradecer a todos que dedicaram um tempo do seu dia para o Lançamento da Revista Cornucopia Vacua #00. Seja de passagem, seja parando pra trocar uma ideia, estou muito feliz por cada presença. Foi muito especial. Vocês me dão forças pra querer fazer ainda mais no projeto. Agradeço muito e peço que continuem colaborando para fortalecermos ainda mais a literatura.  🙂

Fiquem com algumas poucas fotos que consegui tempo de tirar ou que o pessoal querido tirou. Se você tem algum foto do evento, posta com a hashtag  #cornucopiavacua que eu vejo e adiciono aqui com o maior prazer.

– Luciana Minuzzi.

Conto: Missão de amor nas Missões, por Leonardo Dias

O conto de hoje tem cheiro de mato e amor pra vida toda, sob o cenário da região das Missões, no noroeste gaúcho. Leonardo Dias é o nome do autor que assina esse conto romântico. Ele começou a escrever para a internet em 2008. Já teve dois textos publicados nos jornais locais Diário de Santa Maria e A Razão e no Alicante News, jornal digital da Espanha. Além de ser poeta e contista, Leonardo é locutor esportivo. Já narrou vários campeonatos importantes como os Jogos Olímpicos de Londres. Contrariando a máxima de “sorte no jogo, azar no amor”, ele concilia bem literatura e esportes e é um grande entusiasta tanto de um, quanto de outro. Fiquem com o texto e se preparem para muitos suspiros. – Luciana Minuzzi.

Contato do autor:

leodias94@gmail.com | TwitterFacebook | Blog Vamos Como Podemos

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Missão de amor nas Missões

Por Leonardo Dias

Nos rincões das Missões, lá pela Redução de Santo Ângelo Custódio, vivia a Tereza. Por ali, também morava o Augusto. Duas crianças, duas almas, um destino. Se tudo fosse combinado, não daria tão certo como deu. Se tudo fosse planejado, além de não ter graça, não seria como o destino impôs. E quando o destino manda rumo à nossa felicidade, quem somos nós para desobedecer? Eles não foram ninguém para isso e foram tudo para eles. Tudo para o amor. O literal, da letra ‘’a’’ a letra ‘’r’’, onde nenhuma palavra em nenhum alfabeto ou idioma conseguiria descrever. Eram vizinhos predestinados. Colegas que seriam seus melhores professores e alunos.

Tereza era três meses mais velha. Filha única, a joia da família. Cabelos claros, um pouco cacheados. Augusto era o mais novo de cinco filhos, sendo o único homem. As meninas, dois pares de gêmeas, eram amigas de Tereza, mas ela sempre teve uma preferência por Augusto para as brincadeiras. Idade, estatura, pensamentos. Tudo fazia eles ficarem juntos, até mesmo na ordenha da vaca, o recolher do gado, o churrasco, a hora do chimarrão. Augusto era o único que tinha liberdade para perguntar tudo o que quisesse. Tereza era a única que podia mexer nos cabelos lisos e pretos feito café de Augusto. Já nasceram namorados. A oficialização da conquista foi logo com dez anos, sentados na grama, olhando para o céu azul do Noroeste gaúcho. Era um sábado frio, com o vento fazendo questão de soprar forte. Era o incentivo da natureza para que um buscasse a ajuda do outro para se aquecer. Lentamente, vendo que as mãos delas estavam gélidas, ele se aproximou.

– Tu tá gelada, hein? Parece um cadáver.

– Credo, guri! Tem tanta coisa pra me comparar, vem logo com um cadáver.

– Por falar em cadáver, sabe…

– O quê?

– Sabe o céu?

– Sim, né?!

– Tu sabe onde ele termina?

– Meu pai disse que ele não tem fim.

– Assim como o tanto que eu gosto de ti.

Do branco do frio ao vermelho da vergonha. Do coração. Do amor. Ela disse:

– Duvido que tu gostes tanto assim de mim. Até me chamou de cadáver.

– Chamei porque eu quero tá contigo até o dia em que eu morrer.

Ela ficou sem reação. Só pegou firme na mão dele, encostando a cabeça no ombro. Depois de um tempo, perguntou.

– Promete me aquecer no frio, me carregar no colo, secar minhas lágrimas, rir comigo até quando não tiver graça, ser pai dos meus filhos, me aguentar até o meu fim?

– Prometo. E tu promete, todo dia, me encontrar com um sorriso, dormir e acordar do meu lado, ser minha melhor amiga, minha amante, minha prenda, a mulher da minha vida até a hora de eu partir?

– Eu acho que já sou. Prometo. Juro.

Não teve beijo, nem ao menos um abraço. Pra quê? O amor não é só isso. O leal e valoroso amor é feito em qualquer atitude, nos pensamentos. É a palavra cumprida, o pequeno gesto, a atitude. Não falaram em dinheiro, em posses, em condições. Precisaram apenas do coração aberto ao que é o amor, entendendo o que ele é e sentindo o que ele causa melhor do que muita gente com mais experiência.

Depois de jurar, ela deitou no colo dele. E se aqueceu. E amou-o ainda mais. E eles entenderam que não era algo de criança. Já eram adultos, mesmo que em corpos infantis. Entenderam o que é fidelidade, mutualidade, eternidade.

Um dia, depois de uma vida inteira, foram ao mesmo local onde tudo iniciou. Como ficou de herança, eles sempre passavam ali, mas nunca repetiram o gesto. Na ocasião, era um domingo. O clima não era tão frio, mas os 80 anos de ambos exigia uma atenção especial e um casaco não foi dispensado.

– Friozinho, né? – disse ela.

– É… – respondeu Augusto, com a respiração um pouco ofegante.

– Lembra que foi o frio que fez a gente ficar juntos? – pergunta Tereza.

– É? Sabe que eu não reparei? Eu queria mesmo era ficar contigo.

– Tu sempre muito despercebido! Mas espertinho. – falou ela, sorrindo.

– Me lembro que tu botaste a tua cabecinha no meu ombro, mas não chorou.

– Bem que tu poderia fazer isso, né? Até hoje tu não retribuiu.

E ele encostou a cabeça no ombro dela. Olhou para o horizonte missioneiro e fechou os olhos. Lembrou dos cabelos claros, do jeito doce, da menininha pela qual se entregara desde sempre e para sempre, que estava ali para tudo. Fechou os olhos e recordou as lutas, as tristezas, as alegrias, os quatro filhos, a paz de um amor tranquilo, verdadeiro, imutável. Suspirou e ali ficou. Foi seu último olhar, suas últimas lembranças. Ela olhou e viu que ele tinha partido. Partiu repentinamente e ao lado da amada. Ela chorou, mas não totalmente de tristeza. Cumpriram o que prometeram um ao outro. Uma história dessas poderia render um conto. E rendeu.

Conto: A consulta, por Fernando Rodrigues

Eu sempre admirei o modo como o Fernando escreve. E não sou só eu. Ele posta ótimos textos no Satélite Vertebral. Lá tem só coisa fina do mundo das HQs, cinema, literatura. Sempre encontro reviews e notícias interessantes assinada por ele e pelos outros colaboradores. Assim como eu, ele também é jornalista e um apaixonado por contar histórias. Além disso, temos em comum o gosto por quadrinhos. O Fernando disse que iniciou tarde na literatura, mas já tem até conto publicado na Revista Bang Literário, da Elo Editorial. Espero que ser publicado aqui no Cornucopia Vacua também o impulsione para publicar mais e mais. 🙂

Satélite Vertebral | Página no Facebook 

A Consulta

 Por Fernando Rodrigues

… E após muito pensar e sofrer com a agonia torturando sua esfacelada alma, ele adquiriu coragem e falou para o Dr. Freud:

– Senhor Freud, as pessoas afirmam que eu sou louco e que imagino realidades distorcidas. Eu…

– Sim, eu entendo o seu caso, só que…

– Eu também tenho sonhos estranhos. O senhor disse certa vez que sonhos são manifestações do nosso inconsciente, né?

– Sim, o problema é que…

– Pois é, dia desses sonhei que eu era uma borboleta, mas agora não sei se eu sou a borboleta sonhando que é uma pessoa, entende?

– Eu entendo. Eu só quero dizer que…

– E já que o senhor afirma que o impulso sexual move o indivíduo, isso significa que eu quero foder uma borboleta? É isso?

– Não exatamente, eu preciso dizer que…

– E já que o senhor considera a consciência dividida em três níveis, sendo eles o inconsciente o que possui mais difícil acesso, como você poderá me tratar? Será por hipnose?

– Não, pode ser com soco na cara, mesmo, seu maluco do caralho!! Pois há cinco minutos eu estou tentando dizer que eu não sou Freud, que isso aqui é uma padaria e que tu está atravancando a fila do caixa, pôrra!!

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Conto: O caso da morena, por Luciana Minuzzi

É bom reler histórias antigas, né? Podemos medir as diferenças dos escritos de ontem para os de hoje. Nossas experiências com o tempo fazem estilo, temática, tudo evoluir e se modificar. Esse conto é de uns sete anos atrás. Nessa época, já estava mais voltada para as criações jornalísticas do que para as literárias. Postei originalmente no meu outro blog  para criar coragem de mostrar meus escritos ficcionais de novo. Deu certo. 🙂

14.09.15 - O caso da morena_Luciana Minuzzi
Imagem: British Library.

O caso da morena

Por Luciana Minuzzi

Eles cresceram juntos. Eram amigos, amigos de fé. E isso não quer dizer que não discutiam. Aliás, discutiam muito. Discordavam desde a cor favorita até a origem do homem. Por todos os lugares que eles passavam, as pessoas tinham que intervir nas suas rotineiras brigas, ou então eles acabariam se matando. Aliás, eles brigavam muito.
E como já era costume, eles se encontraram no botequim de sempre, onde a moça que os atendia já sabia de cor o que cada um pediria. Um pedia água com gás, e o outro, uma cachaça da braba.
E a conversa rolava tão envolvente que as pessoas ao redor prestavam muita atenção nos dois homens que defendiam com muita ênfase seus argumentos. Pena que as pessoas que os ouviam eram apenas a garçonete e o Zé, que era um bêbado residente no botequim.
Quando, de repente, uma morena escultural entra no bar e faz com que todos parem e olhem somente para ela. A garota senta perto do balcão e pede uma cerveja, enquanto cruza as pernas delicadamente. Os dois amigos comentam sobre as formas convidativas da moça.
Quando ela percebeu que eles a olhavam, sua atitude foi encará-los e sorrir. Quando enfim eles concordaram em um ponto, que era achar aquela morena maravilhosa, os amigos se defrontaram com uma questão: para qual dos dois ela teria olhado?
E então passaram a uma longa e interminável discussão. Enquanto isso, a morena impaciente foi embora com o Zé…

Coluna: Para repensar a poética, por J. Rowstock

*Este conto faz parte da Revista Cornucopia Vacua #00.

Josué Rowstock, estudante de Letras na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é quem encabeça o Febre de Rato, projeto independente que injeta literatura todos os dias na linha de tempo do Facebook. Além disso, escreve poesias, crônicas e romances publicados nos jornais, em livros e até nos postes pela rua. Já tive o prazer de prefaciar o seu livro De Tudo e Mais um Pouco, lançado em 2013. Reproduzo um parágrafo aqui, pois ele resume o que penso sobre a obra desse poeta marginal: “Um bom escritor é um bom tradutor do mundo e J. Rowstock é um bom escritor. E escreve em vários lugares: nestas páginas, de modo virtual, no poste pra todo mundo ver. Não se pode fugir do que esse cara tem a dizer justamente porque ele fala do nosso cotidiano. Expõe nossas vísceras com um tapa de luva.”

Site | Febre de Rato

14.09.12 - Para Repensar a Poética_JRowstock

Para repensar a Poética

Por J.Rowstock

Tudo bem gostar de livros de poesia tradicionais, eu como escritor e leitor também prefiro a maneira habitual de degustação poética literária. Entretanto, acredito que deveríamos repensar as formas de fazer poesia, de modo que estamos vivenciando uma época onde o consumo para com a poesia é cada vez mais baixo. Livros de poesia vendem tão pouco que hoje em dia as editoras só lançam quem já têm um público realmente fiel ou as já reedições de poetas consagrados de outrora.

Uma vez que a poética está um tanto quebrada ao meio, é imperativo salvar este modelo de escrita repensando a poesia. De modo que se faz necessários termos de volta aquela poesia cantada como em outros tempos, pois de fato esta poesia  que hoje temos e que estamos lendo de voz baixa e impressa apenas num papel branco ou pardo até poderá conseguir manter seus leitores fiéis, porém não ganhará mais do que isso, já que os novos leitores que mais estão acostumados a televisão e ao computador não sentirão o tesão necessário para apreciar a boa poesia.

Talvez, seja o modelo corriqueiro de lançamento de livros de poesia que faz a poética perder um tanto de leitores e estagnar a produção. De fato, temos tão bons poetas como nunca tivemos, mas para fazer essa nova geração deslanchar é preciso pensar novas formas de fazer poesia e de vender poesia.

Portanto, é imperativo buscarmos novidade se quisermos somar e multiplicar leitores de poesia no Brasil e no mundo. Repensar a poética que vêm sendo feita é preciso…

Apresentação

Cornupina vai rodar por aí e esvaziar a sua cornucópia.
Cornupina vai rodar por aí e esvaziar a sua cornucópia.

Uma cornucópia pode ter vários significados. Alguém pode lembrar-se de ter visto pintada em um pano de prato na cozinha. Quem estuda mitologia greco-romana, vai explicar melhor do que eu, mas é um símbolo de abundância. O passar do tempo agregou significados e ela virou símbolo das ciências econômicas. Também tem relação com alguns otimistas quanto à fartura no futuro. Pode ainda ser um lugar em Wisconsin ou uma música do Black Sabbath de 72 – admito que essa última seja a que mais significa para mim. Não importa o que vem a mente, mas que esse vaso em forma de chifre com coisas dentro nos faz pensar. Ao menos, me fez. Tanto que o pensamento cresceu e virou revista e blog. Mesmo que o vazio possa representar pessimismo, acredito que é uma oportunidade de colocar ali toda fartura que se imaginar. Pra mim, fartura é ver a profusão de palavras formarem frases e essas frases contarem histórias. Aproveitem essa cornucópia de histórias que os brindo junto com bons amigos e familiares que colaboraram para que ela acontecesse. Ao longo dessas páginas, letras de gente que me ajudou de alguma forma a ter coragem e mostrar o que escrevo para o mundo. Ao final, quero que você me diga: o que quer colocar na sua cornucópia?

Envie seu material, dúvida ou comentário para: cornucopiavacua@gmail.com

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Em breve, detalhes sobre o lançamento da revista impressa. Fique ligado. 🙂