Arquivo da tag: ilustração

Livro: Neto e a Boca do Monte, por Lucas Visentini

Hoje é dia de inaugurar uma categoria muito especial aqui na CV: livros. Sim, ao final desta postagem, você poderá ler na íntegra “Neto e a Boca do Monte”. A obra foi escrita por Lucas Visentini e ilustrada por Filipe Furian, ambos participantes do III Concurso de Literatura Infantil Ignez Sofia Vargas, promovido pela Academia Santa-Mariense de Letras (ASL).

Quem fez a gentileza de nos enviar o livro foi o Lucas, que além de autor, é professor e mestre em educação. Fora o trabalho publicado pela ASL, ele também tem uma crônica publicada na quarta edição da Revista Bang Literário, pela Elo Editorial; e foi Um dos vencedores do Concurso #POAtuitada, cujo microconto foi publicado em um livro distribuído gratuitamente na 60ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Ao longo das páginas, é contada a história do sabido Neto e suas percepções quanto à natureza que o rodeia. Sua imaginação fértil transforma os morros ao redor da cidade em camelos adormecidos.

Ilustração: Filipe Furian para Neto e a Boca do Monte.
Ilustração: Filipe Furian para Neto e a Boca do Monte.

Quando Lucas contou para a CV sobre como começou a escrever, percebemos as interseções entre criador e criatura e como o lugar em que cresceu o inspirou:

“Tudo começou em Val-Feltrina, um lugarejo entre montanhas, no meio do mato, onde nasci e morei durante os primeiros anos da minha vida. Eu criava antes mesmo de poder escrever, tudo estava na minha mente, com a companhia rebelde da natureza sempre arisca. Lembro-me que eu conversava com os animais, e o engraçado é que eu tinha a certeza de que eles me entendiam, mas não respondiam por malcriação. Hoje eu sei que eles são educados…”.

Lucas pretende continuar com as referências regionais em seus projetos futuros e contou para a CV que vem mais livro por aí. Enquanto não lemos seus novos trabalhos, fiquem com essa doçura que é “Neto e a Boca do Monte”:

Contato do autor: visentinilucas@gmail.com

Para acessar o pdf do livro, clique no título: Neto e a Boca do Monte

15.05.31 - Neto e a Boca do Monte, por Lucas Visentini

Gostou? Compartilhe, comente, ajude a fortalecer a literatura. 🙂

Desafio #2

Faz algum tempo que o Desafio #1 foi lançado. Lembra? Se não, clique aqui. O objetivo desse jogo é agitar os autores para mostrarem as suas produções. Dois corajosos responderam com belos poemas que você pode ler aqui.

No segundo desafio, resolvi propor algo menos bucólico e mais inusitado. A ideia é escrever um poema, conto, crônica ou ilustrar, riscar, tacar fogo na imagem abaixo. Vale tudo que vocês imaginarem. Pode ser algo romântico, algo assustador. Fica a cargo de vocês.

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Será um fantasma? O menino se assustou e desmaiou ou foi morto? O que são aqueles barris? Mistérios…

Para participar é preciso:

  • Soltar a imaginação;
  • Produzir algo e enviar para cornucopiavacua@gmail.com com seu nome, site ou blog em que publica seu trabalho (caso tenha) e e-mail.
  • Aguardar a resposta.

A figura vai valer até o dia 10/03. Depois disso, posto outra. O material resultante do desafio será postado no site tão logo terminar o prazo.  Se não houver participação, vou ficar muito chateada, mas não vou deixar de desafiá-los. He, he. Conto com vocês. 😀 – Luciana Minuzzi.

Resultado do Desafio #1

Para agitar o espírito dos artistas, propus um desafio. Leia sobre nesse post.  O prazo era curto justamente para tirar o artista daquele modo de rascunhar e guardar na gaveta. A ideia era que se produzisse algo baseado na imagem abaixo. Dois corajosos responderam à provocação e disso nasceram dois belos poemas, diferentes em suas interpretações e essências. Confira o resultado.

Fique ligado que logo, logo, vem mais desafio por aí. 😀  – Luciana Minuzzi.

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

O ponto mais Longe de Tudo

Por Kako Von Borowski

Se os olhos na sua nuca

Enxergassem

Veria o lugar, o estado mental

que esteve toda a sua vida

O efeito borboleta

Já começou

da infância a repressão

Como pode não ver a diferença?

Como é possível que estes sejam…

Os únicos campos que conhece?

Se apenas houvessem outras

Melodias

Mas não se ouve nada em milhas

Que são apenas longe demais

Das almas

Que habitam meu coração

Como posso falar com todas elas?

O gramado onde caminham é tão opaco…

Será que nada vai mudar por aqui?

Talvez…

Tudo passará

O esverdeado escuro

Que vejo todos os dias

Talvez…

Passe a não ser

Tão escuro que cega

Mas isso, isso…

Só o tempo dirá

*O Kako já publicou aqui na CV. Mais do trabalho dele na tag: https://cornucopiavacua.wordpress.com/tag/kako-von-borowski/

Um menino perdido na solidão

Por Robert Pavão

Pois desde cedo

Eu percorro por caminhos

Caminhos que eu não sei para onde me levaram

Percorro por lugares desconhecidos

A procura de paisagens

A procura da felicidade

Eu estou perdido aqui

Perdido na alegria e na paixão

Neste lugar solitário, que me faz refletir

Refletir no que é bom para mim

Neste campo, neste paraíso

Pois eu sou apenas um menino

Um menino em busca da diversão

Pois sentir o cheiro

O cheiro das flores

O cheiro da natureza

Pois tenho em mente o que realmente é bom

Pois sei que isso é uma boa diversão

Para um menino perdido

Perdido na sua solidão

Desafio #1

Como a CV tem esse caráter agitador de autores, resolvi propor alguns desafios para vocês. Pra começar, a ideia é escrever um poema, conto, crônica ou ilustrar, riscar, tacar fogo na imagem abaixo. Vale tudo que vocês imaginarem. Pode ser algo romântico, algo assustador. Fica a cargo de vocês. Para participar é preciso:

A figura vai valer até o dia 05/02. Depois disso, posto outra. O material resultante do desafio será postado no site tão logo terminar o prazo.  Se não houver participação, vou ficar muito chateada, mas não vou deixar de desafiá-los. He, he. Conto com vocês. 😀

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Conto: Nós somos o neon da noite escura, Mário Finard e arte de Pedro Lago

Se arte é provocar sentimentos em que a está vendo, o Mário Finard pode se considerar um verdadeiro artista. Para o bem ou para o mal, ele gosta de instigar o espectador e provocar os sentimentos mais diversos. Sob o pseudônimo de Nixon Vermelho, ele escreve, fala, sem nenhuma cerimônia. Esses pensamentos são compartilhados no seu blog. Confira no link abaixo.

Além disso, Mário é sócio na Pastel Store, produtora de vídeo. É um cara impaciente e dinâmico, como ele mesmo se descreve. Faz um pouco de cinema, música e literatura. Em meio a tudo isso, ainda tem tempo de amar a esposa Lavi, que já publicou aqui no site.

Como já fez parte de uma banda punk e é envolvido com arte desde sempre, essas referências são refletidas na sua obra, como vocês verão no texto abaixo.

Seguindo os nosso princípios de um artista mostrar a sua visão de outro artista, quem ilustra este conto é o Pedro Lago. Ele já participou por aqui com o poema e ilustração: Na TV só passa merda – Recuerdos de la mañana.

O trabalho do Pedro é uma mistura de texturas digitais ou de revistas com rabiscos precisos e instigantes que saem da ponta do seu lápis. Além de fazer essa “ilustração conceitual de guerrilha” como o mesmo define, ele é publicitário, outra arte que mexe com imagens e palavras. O Pedro também é colaborador do Pândego.

Contatos Mario Finard:

E-mail: mario.finard@gmail.com | Facebook Twitter | Blog

Contatos Pedro Lago:

E-mail: pedro.perini@gmail.com | Facebook Site | Página de O Pândego

Imagem: Pedro Lago.
Imagem: Pedro Lago.

 

Nós Somos o Neon da Noite Escura

Por Mário Finard

 

Eu não esperava que você fosse tão cedo.

Foram apenas 30 minutos de amor.

E você não sentiu nada por mim, apenas vestiu sua calcinha de oncinha, pegou seu dinheiro e foi embora. Tudo bem, agora só me deixe aqui. Sei que não sentirás remorso. Vou ficar sozinho até o amanhecer, olhando pela janela do 12º andar as luzes coloridas do parque de diversões. Luzes brilhantes, flores de eletricidade.

Posso não parecer humano, mas no fundo também só queria ser amado como em um filme barato dos anos 50. Mas isto não é mais possível, não sentimos mais nada, somos apenas os filhos da publicidade, das relações eletrônicas.

Somos marcas e números.

Somos o presente sem devolução.

Sonhávamos que éramos os novos deuses que agora andavam pela terra. Mas estávamos enganados, nossa geração é apenas o fruto do consumo desmedido. Nossos poderes estão em um cartão de plástico que carregamos como a cruz da nossa seita. Nossa igreja é um shopping center.

Nosso amor é comprado.

Não queremos mais sofrer, mas ao mesmo tempo não sabemos mais ser felizes. Temos medo do infinito que não dura uma estação ou da imprevisibilidade das relações.

Multi telas de 51 polegadas nos mostram o topo do mundo. Estamos sobre os ombros do gigante, vivendo em um planeta de uma língua só. Eu, você, eles… Somos todos um só, conectados por cabos diretos no córtex. É muito tarde para tentarmos nos separar e recomeçar. Nosso destino é sermos quem querem que sejamos. O redator já escreveu nossas falas, o diretor de arte já elaborou nosso visual.

Somos o plástico, o vinil, a cor cítrica do verão.

Somos o perfume, o tênis e o restaurante moderno.

Não existe mais um Joe Strummer.

O The Smiths acabou.

Queime seu aparelho de mp3 na fogueira de Joana D’Arc.

Comece a anarquia.

Mas não adianta falar mais nada, você já fechou a porta e foi atender seu próximo amor.

Retrospectiva 2014

O último post antes deste foi sobre os números do blog em 2014. Confiram aqui.

Como vocês viram, tivemos muitos acessos nos vários poemas, contos, crônicas e tudo mais postado no site. Só tenho a agradecer e fico muito feliz em ver os trabalhos apreciados e compartilhados. Comecei a trabalhar com a ideia da revista em junho, mas foi em 8 de agosto o primeiro post do site. Nele, eu contava o que era essa tal de cornucópia. Clique aqui para conferir. De lá pra cá, foram quase  30 posts com conteúdos diversos e tri bacanas.

Tem muito material ótimo no agendamento esperando para ser publicado. Então, aproveite. Reveja a lista e acesse os textos ainda não vistos ou relembre os já vistos. Logo, logo, terá muita novidade por aqui.

Falando nisso, já enviou o seu material?  Tá esperando o quê? 😀 Clique aqui e saiba como.

Autores, confiram os comentários dos leitores nos seus posts. Tem vários muito legais. 😉 – Luciana Minuzzi.

15.01.02 - Retrospectiva

Conto

CONTO: NASCIDA EM SANGUE, POR LUCIANA MINUZZI

PARCERIA: ANTES DO CEDO, POR CESAR DOMITY

CONTO: O ÚLTIMO, POR LUCIANA MINUZZI

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

CONTO: O CASO DA MORENA, POR LUCIANA MINUZZI

CONTO: A CONSULTA, POR FERNANDO RODRIGUES

CONTO: MISSÃO DE AMOR NAS MISSÕES, POR LEONARDO DIAS

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

CONTO: PÉ PELADO, POR LUCIANA MINUZZI

CONTO: QUANDO O GAÚCHO SAI DE FÉRIAS, POR CESAR BORGES

CONTO: CÁRCERE, POR LUCIANA MINUZZI

CONTO: O NÚMERO DO QUARTO É 123, POR VERÔNICA MORTA DA SILVA

CONTO: AS SORRIDENTES, POR MATHEUS RIBEIRO SANTI

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Poema              

PARCERIA: SOU VERSO, POR MARA GARIN

POEMA: ELA DISSE: (CUM), POR KAKO VON BOROWSKI

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

POEMA E ILUSTRAÇÃO: NA TV SÓ PASSA MERDA – RECUERDOS DE LA MAÑANA, POR PEDRO LAGO.

Imagem: Pedro Lago.
Imagem: Pedro Lago.

POEMA: CÊ, POR EDUARDO RUEDELL

POEMA: VOCÊ EM MIM, POR LAVIOLETE ARAÚJO

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Crônica

CRÔNICA: (RE) ENCONTROS, POR RAFAEL PACHECO

CRÔNICA: SOBRE A HUMANIDADE, POR SIMONE MACHADO

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Coluna

COLUNA: PARA REPENSAR A POÉTICA, POR J. ROWSTOCK

Entrevista

ENTREVISTA: O MULTI-TALENTOS ALEXANDRE CARVALHO

14.09.29 - Entrevista_Alexandre Carvalho2
Imagem: Luciana Minuzzi

 

Lançamentos e lembretes

ENVIE O SEU MATERIAL PARA A REVISTA CORNUCOPIA VACUA

VOCÊ VAI NO EVENTO DE LANÇAMENTO DA REVISTA CORNUCOPIA VACUA #00?

COBERTURA DO LANÇAMENTO DA REVISTA CORNUCOPIA VACUA #00

DSC00966
Imagem: Luciana Minuzzi

 

VOCÊ VAI AO EVENTO DE LANÇAMENTO DA CV #1?

COBERTURA DO LANÇAMENTO DA REVISTA CORNUCOPIA VACUA #01

???????????????????????????????
Imagem: Luciana Minuzzi

 

FELIZ NATAL, LEITORES DA CV

OS NÚMEROS DE 2014

 

 Um 2015 cheio de boas leituras pra todos nós. 🙂

Conto: Pé pelado, por Luciana Minuzzi

Hoje tem um conto desta editora que vos fala. E ilustrado pelo Guilherme Hollweg, mais conhecido como Guiga. Quando não está desenhando ou lendo HQs, o Guilherme trabalha como programador e estuda Engenharia Elétrica na UFSM. Ele contou que sempre se interessou muito por desenhar e passou a refinar a sua arte quando integrou o Núcleo de Quadrinhistas Quadrinhos S.A., em meados de 2006. O trabalho dele já foi publicado em várias revistas Quadrante X, tiras semanais no Jornal A Razão e em páginas e sites da área dos quadrinhos. Confiram os contatos dele abaixo e vejam mais material dele.

Contatos do ilustrador Guilherme Hollweg:  guilhermehollweg@hotmail.com | Facebook  | Site

Quanto a mim, como já falei em outras ocasiões, sou jornalista e acadêmica de produção editorial na UFSM. Também trabalho como roteirista e dou oficinas de criação textual (podem me chamar pra trabalhos. He, he). Esse conto é de um tema mais leve, mas tenho escrito mais voltada para monstros e obscuridades do terror que é o objeto da minha pesquisa atual. Em breve, vou postar algo mais assombroso pra vocês.  – Luciana Minuzzi.

Meus contatos: minuzziluciana@gmail.comBlog

Ilustração: Guilherme Hollweg.

Ilustração: Guilherme Hollweg.

Pé pelado

Por Luciana Minuzzi

Você já deve ter esbarrado nela por aí. Ela é daquele tipo de pessoa que a gente quase não vê de tanto que se mescla no cardume das ruas. É mãe de três guris. O mais velho é o Bernardo. Os outros dois são os gêmeos Pedro e Gabriel, nomes escolhidos para não combinarem propositalmente. Falando em nome, o dela é Maria, só Maria mesmo. Aliás, toda vez que vai preencher um cadastro, conhecer alguém novo ou coisa assim, ela tem que dizer:

“Maria, só Maria mesmo.”

A mãe dela dizia que a batizou assim para ninguém esquecer ou confundir e Maria seguiu o mesmo princípio para nomear os filhos, sem nada de muitos “ys” e nomes compostos ou parecidos. Isso tudo porque a mãe de Maria se chama Antonina Josephina Ângela e esses três nomes complicaram muito a vida dela. Quando casou, ainda teve que acrescentar o sobrenome do marido: Fitzroy.

Além de trabalhar como mãe todos os dias sem folga, Maria é secretária do Doutor Tavares – que faz questão de ser chamado pelo sobrenome precedido do título de doutor. Ele é o verdadeiro baixinho invocado e carrancudo. Os frisos da testa parecem não ter fim visto a falta de cabelo na parte frontal da sua cabeça. Apesar da aspereza, é um bom dentista e justo com Maria.

Com um chefe tão exigente, os filhos, os dois cachorros e o gato, ela precisa estar desperta e disposta antes mesmo do Sol dar as caras. Mas naquele dia, ela não levantou com as galinhas. A cama estava mais convidativa do que o usual. Era o primeiro dia daquela semana em que os pingos de chuva na calha não a incomodaram durante a noite e um ar quente soprava pelas frestas da janela.

Os cinco minutinhos de soneca viraram um atraso de meia hora. Foi uma correria daquelas. Acordou os meninos, fez café, engoliu um pedaço de pão, cuidou dos cachorros, deu comida pro gato, arrumou ali, ajeitou aqui, beijou os meninos na testa e mandou para a escola. Abanou para os meninos que saíram pelo portão e espiou o Sol tímido por detrás das nuvens. O gato rolava e ronronava, brincando com o chinelo de Maria. Dona Mercedes, uma senhorinha que morava na casa de trás, aproveitou para estender a roupa úmida.

Suspirou… E, por um minuto, pareceu que o tempo havia parado.

O tic-tac do relógio a fez voltar para o ritmo e correr para chegar a tempo e não ouvir bronca do Doutor Tavares. Foi um vendaval tão grande que nem deu tempo de ligar o radinho companheiro para conferir a previsão do tempo. Maria olhou para as parcas roupas no armário. Muitas feitas pela mãe, ou usadas da irmã. Ela não gostava de se enfeitar, apesar de estar sempre bem asseada. Aproveitou que não viu sinal de chuva para colocar a sapatilha amarelinha. Foi um alívio depois de tantos dias usando o mesmo sapato fechado para não molhar os pés.

Quando pequena, a mãe sempre a fazia usar meias, pois acreditava que a mulher seria mais fértil mantendo os pés sempre quentes. No frio e no calor, Maria e a irmã Janice sempre estavam de meias. No inverno, com botinhas, e no verão, com chinelos de dedo. A crendice parece ter surtido efeito já que a dona Antonina Josephina Ângela é uma feliz avó de nove netos.

“Que bom poder deixar meu pé pelado”, pensou Maria.

Ao botar o pé para fora de casa, sentiu os pingos escorrerem pelos óculos. A chuva fria se misturava com o suor da caminhada rápida. Chegou a tempo de disputar um espaço sob a aba da parada de ônibus, mas foi empurrada para fora por um cara grande e bem mal encarado que chegou depois. Maria tentou proteger o cabelo bem penteado com a bolsa e desejou que o ônibus chegasse logo. O pedido foi atendido. Como dizem para ter cuidado com o que se pede, Maria se arrependeu prontamente. A roda do ônibus passou por cima de uma poça que mais parecia com a piscina de 1000 litros em que os filhos passavam o verão.

Os pés quase desnudos foram molhados e ela saltou para trás. O susto não a parou, no entanto, a sensação da água gelada misturada com terra entre seus dedos era boa, ela não conseguia explicar, nem entender. Só sentir. Os pés ficaram inquietos, começaram a se mover um para cada lado e ela estava sapateando como se fosse a própria Ginger Rogers em um ato com Fred Astaire. Enquanto olhava para os pés sem entender, as pernas e o quadril foram se contagiando e ela se sentia mais solta do que um dançarino de axé em pleno carnaval. Até mesmo o cara mal-encarado do ponto soltou a expressão dura e os olhos brilharam. A dança parecia um número da Broadway.

Em seguida, os braços e a cabeça de Maria entraram no compasso daquela música imaginária que parecia conter todos os ritmos. Pulou de uma poça a outra, sem parar. Rodopiou, sambou e rebolou como se tivesse sido invadida por todos os dançarinos de um festival internacional de dança. As pessoas na parada não conseguiram fazer nada a não ser aplaudir aquele espetáculo.

Maria não conseguia parar de sorrir. Ela estava tão alegre quanto cansada, molhada e descabelada. Outro ônibus veio e ela precisou ir. Subiu os degraus ao som dos aplausos. O sorriso não cessava. Estava em êxtase. Foi cantarolando até o consultório do Doutor Tavares que estava impaciente e pronto para despedir a funcionária. Ele não conseguiu. Ao abrir a porta, estava o rosto mais encharcado e feliz que ele havia visto. O sorriso de Maria desfez a carranca de Doutor Tavares que sentiu os pés formigarem e uma vontade enorme e inexplicável de dançar.

Daquele dia em diante, Maria não passava mais despercebida pela multidão. Ela sorria e contagiava qualquer um a sua volta. Dos filhos aos cachorros, da vizinha até o Doutor Tavares, todos se sentiram tocados por aquele acontecimento insólito que fez com que Maria descobrisse uma auto-satisfação escondida como o Sol entre as nuvens. Os pés não ficaram mais escondidos, ficavam sempre à mostra, prontos para bailar. Da próxima vez que você passar por ela na rua, não se esqueça de olhar os pés.

Poema e ilustração: Na TV só passa merda – Recuerdos de la mañana, por Pedro Lago.

A inauguração da categoria “Ilustração” aqui na Cornucopia Vacua veio através do traço do Pedro Lago. E começou bem porque o Pedro também tem uma ideia bem alinhada com os propósitos da revista pois acredita que tem muito artista bom por aí que precisa de mais visibilidade.

Mesmo que ele diga que não é desenhista, só um bom enganador, eu fiquei encantada com o trabalho dele e acredito que vocês também vão ficar. O Pedro mistura texturas digitais ou de revistas com rabiscos precisos e instigantes que saem da ponta do seu lápis. Junto a isso, vêm as palavras para dar forma ao pensamento e sentimento ilustrado.  Além de fazer essa “ilustração conceitual de guerrilha” como o mesmo define, ele é publicitário, outra arte que mexe com imagens e palavras.

O gosto pelas artes veio cedo com os quadrinhos e nerdices em geral. Ele se diverte com o início da sua trajetória: “O auge da minha carreira artística talvez tenha sido ajudar minha mãe na configuração da decoração para a festinha de 10 anos do meu irmão mais novo, Francisco. O tema era Dragon Ball Z”. – Luciana Minuzzi.

Contato do autor:

E-mail: pedro.perini@gmail.com | Facebook | Portifólio |  O Pândego 

Imagem: Pedro Lago.
Imagem: Pedro Lago.

Na TV só passa merda – Recuerdos de la mañana

Por Pedro Lago

dependo

do pêndulo

pendente

que pende

pedinte

perigoso

pelo

preço

pago

por mim.