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Conto: O Menino e a Caracola, por Tania Caballero

*Este conto faz parte da Revista Cornucopia Vacua impressa #02

Tania Caballero, também assina como Lilith Carmín, em seu trabalho geral; ou Espontânia, em seus textos voltados para os pequenos. Já foi atriz de teatro, dançarina, designer e cantora. Hoje, cursa Licenciatura em Letras e Literatura na UFSM, é modelo viva do ateliê 1234 de Artes Visuais da UFSM, trabalha em um ateliê de artesanato e lá faz diversos tipos de artes. Ainda sobra um tempinho para escrever poemas, contos curtos, e também origamis, kirigamis e caligramas.

Ufa! Fora isso, ela ainda é mãe do Samuel, de apenas cinco anos. Foi ele quem inspirou o conto abaixo. “Ele me deixa mais ensinamentos que eu a ele. (risos) O mundo na visão de uma criança é muito mais simples. Simplesmente é. Seria grandioso se os adultos não tivessem se esquecido de olhar o mundo com os olhos de uma criança”, relata Tania. Precisa dizer mais? Confira o conto abaixo e também a página da moça no Facebook.

Contatos da autora

tania.tco@gmail.com | Página no Facebook

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

 

O menino e a caracola

Por Tania Caballero (EsponTânia)

O pequeno menino que brincava com dinossauros achou uma conchinha vazia no seu quintal, se perguntava que tinha acontecido com a caracola que morava dentro, depois de tudo, esse era seu lar e a resiliente caracola já tinha um bom tamanho para andar, já não tão pequena para ser comida pelas aves, nem tão grande para morrer de anosa.

Aonde foi? –ele se perguntou- e a colocou perto do ouvido para escutar o som do mar, o vô sempre falava que dava para ouvir o mar dentro das conchas vazias. Olhou para a conchinha insossa detidamente, cheirou e sentiu o cheiro daquelas coisas que são do mar, a virou, espiou por dentro com um olho, desconfiado ouviu de novo. Lá estava aquele barulhinho, as ondas ecoando, espumas flutuando, era o mar chamando.

Ah, ela se foi porque a chamaram! Atendeu ao chamado! –rapidamente pensou. Ela nunca tinha saído do quintal, nem sabia o que era o mar.

Mas que é do mar para o mar volta, o mar é seu verdadeiro lar –concluiu- O mar chama, o vento espalha o chamado, os seres que escutam viajam para serem abraçados pelas águas deixando atrás as pesadas cargas, essa e uma maneira de facilitar a viagem. Não há como fugir do intrínseco chamado.

Mas ela chegou lá? –ainda se questionou E muito longe e ela não conhecia o caminho. Ah! Já sei –falou olhando para o chão– Foram as formigas! Elas a levaram até o mar! Pedacinho por pedacinho, finalmente a caracola chegou lá.

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Resenha: Mala Vida

“Mala Vida representa o dia-a-dia anotado em margens de cadernos. E anotar nas margens representa ignorar a pauta. E é isso que Polin Moreira faz. A frustração cotidiana oprimida pelas tarefas “dignificantes” da vida moderna canalizada na criação um material dotado apenas de margens. Nessas margens desenho e escrita se fundem para expressar a desilusão e a desesperança do mundo que nos prometem assim como toda sua construção de sonhos pré-produzidos a serem deliberadamente consumidos. Mala Vida representa o sentimento do desgosto, da insatisfação com o modelo “conto de fadas” ao qual estamos acostumados a venerar.”

Por Jorge Gularte, artista visual.

Mais imagens do zine e do trabalho do Polin no Flickr: https://www.flickr.com/photos/polinmoreira/

Clique nas imagens para ver ampliado.

Envie sua resenha para cornucopiavacua@gmail.com Preferencialmente, sobre artistas independentes e locais. 😉

Poema: Gravata, por José Galdino Barreto Soares

*Este poema faz parte da Revista Cornucopia Vacua impressa #02

O autor do poema abaixo já tem um vasto currículo na área da literatura, com vários livros publicados, inclusive. José Galdino Barreto Soares escreve poesias, crônicas e monólogos. Além do trabalho com as letras, ele cursa Ciências Sociais na UFSM e atua como Coaching.

Gravata foi escrito em 2004 e publicado em 2007, no livro “Breu o lado Escuro de Um Poema”. José define que “é um poema que provoca reflexão sobre a fugaz saga humana na terra”, mas não se limita: “Por ser poesia, ela por si só irá dizer várias coisas, sendo assim sou incapaz de informar o todo desse poema.” Então, boa leitura e reflexão sobre os versos abaixo.

Contato do autor: galdino_barreto@yahoo.com.br

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

 

Gravata

Por José Galdino Barreto Soares

 

Se os vermes não mais

Me acompanharem

E se só levarei

O que aqui deixar…

De que me adianta correr

Se partirei como um cão faminto

E só na minha lápide fria abrigo seguro terei

 

Quando as minhas mãos fracas

Agarrarem somente o que elas puderem empunhar

Ficará só uma simulação do fim da carreira

Um esqueleto débil…

Um túmulo sem reboco

Vermes saciados.

 

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Conto: O Barqueiro, por Cesar Alcázar

*Este conto faz parte da Revista Cornucopia Vacua impressa #02

Leia mais do autor na tag: https://cornucopiavacua.wordpress.com/tag/cesar-alcazar/

O mundo de Cesar Alcázar gira em torno das letras. Quando não cria contos, trabalha como tradutor ou editor da Argonautas. Começou a escrever ficção com o objetivo de publicação em 2008. Porém, desde 2001, escrevia sobre cinema. Ele também atua movimentando a cena literária, com eventos como a Odisseia de Literatura Fantástica. Recentemente, Cesar se aventurou pela nona arte com a HQ “A Música do Quarto ao Lado” e a webcomic “Contos do Cão Negro”.

No conto abaixo, ele traz uma releitura do mito grego de Caronte, o barqueiro que transporta almas para o mundo dos mortos. “Inseri no personagem meus próprios anseios, retratando uma época em que eu estava preso a um trabalho que detestava e sonhava com algo mais”, conta o autor. Intrigante, não?

sartanawest@gmail.comBazar Pulp

 

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

O Barqueiro

Por Cesar Alcázar

Era o barqueiro no rio do infortúnio. Não entendia muito bem sua função, apenas a executava. Recebia moedas que não podia gastar, pois nada existia para ele além do barco e das águas sombrias. A existência prosseguia sem grandes acontecimentos, e o tempo nada significava. Havia apenas um problema: o sonho.

Passageiros chegavam, rostos entristecidos tão nebulosos quanto o céu escuro imutável, estendiam suas mãos com o pagamento incompreensível e partiam para o outro lado. Nunca mais os via. Bem, quase nunca. Alguns retornavam. E com eles vinha o sonho.

Certa vez, um homem magnífico, que em nada se assemelhava aos melancólicos passageiros habituais, retornou. Trazia em suas costas uma besta terrível, e estava acompanhando por uma bela mulher. As faces do casal irradiavam uma sensação desconhecida. Porém, o barqueiro limitou-se a estender a mão ossuda para coletar a moeda de pagamento.

Quem seriam aqueles homens? Heróis? Aventureiros? Deuses? O barqueiro sentia uma enorme vontade de falar com eles. Porém, esta não era sua função. Devia remar o barco, só isso.

E, quando não havia passageiros, ele adormecia e sonhava. Sonhava ser um herói, um aventureiro ou um deus. Sonhava que havia algo mais na existência do que um barco, um remo e um rio de águas sombrias.

Poema: Eu Beijei Estrelas, por Kako Von Borowski

*Este poema faz parte da Revista Cornucopia Vacua impressa #02

Leia mais do autor na tag: https://cornucopiavacua.wordpress.com/tag/kako-von-borowski/

O Kako já é um parceiro querido aqui da CV. No site, vocês poderão conferir vários trabalhos dele. Como é um multiartista que compõe letras e toca guitarra, ele sempre traz algo de muito plural na sua arte pelas suas muitas influências musicais – de Beethoven a Pink Floyd – e literárias – como Edgar Allan Poe. Sobre o melhor e o pior de ser artista, Kako respondeu: “O melhor é depois de terminar algo e se sentir feliz e triste ao mesmo tempo, olhando para o que fez, o sentimento de realização, parece que entramos e saímos de uma jornada incrível por cada nova parte da gente que estamos a conhecer naquele momento”. Confiram o resultado dessa jornada abaixo.

matheuskakomusica@gmail.com | Facebook 

Imagem: British Library.
The Half Hour Library of Travel, Nature and Science for young readers

Eu Beijei Estrelas

Por Kako Von Borowski

As estrelas brilham alto no céu

Tão perto que posso sentir

Seu cheiro e seu calor

Que me envolve e acalenta

Nesse único e definitivo momento

Eu sinto seu corpo, feito de luz

Pele e unha, mas ainda sim

Tudo é tão escuro e macio

Eu abraço forte e com calma

Reaprendemos a tocar e respirar

E cada segundo que passa…

Dói, dói a antecipação

De explorar

O desconhecido

Estrelas brilham em nosso corpo

E o seu líquido eu espalho

Com todo o meu rosto

Os meus lábios e seus dedos

Hoje fazem chover pra sempre

Mas a tempestade existe aqui agora

E Nenhum ruído pode sequer

Superar todos os nossos

E nada de nada mais pode pará-la

Nem o maior terremoto daqui

Nem a maior autoridade

O mistério febril vai se revelar

Depois dos trovões que batem

Nos nossos ouvidos

Eles batem, batem, batem, batem…

O alívio desce e caminha sobre

Nossas costas molhadas

Era, enfim, a chuva.

Poema: Mulheres do século XXI, por Simone Machado

*Este poema faz parte da Revista Cornucopia Vacua impressa #02

Leia mais da autora na tag: https://cornucopiavacua.wordpress.com/tag/simone-machado/

Uma poetisa apresenta uma visão sobre as mulheres do nosso tempo no poema abaixo. A autora é Simone Machado, estudante de Letras da UFSM e também cronista e contista. A incursão da moça pelo mundo das letras começou muito cedo, fortaleceu-se no ensino médio e, agora, ela já tem até um plano bem formado: “Pretendo escrever livros para jovens e adultos, misturando a realidade e a magia e mostrando que é possível falar de coisas sérias (como política, meio ambiente…) com jovens utilizando a criatividade e ambientando histórias no cenário brasileiro, utilizando da nossa cultura (o que ainda é visto com certo preconceito por muitas pessoas)”. A CV torce para que o plano de Simone dê certo.

siihnrock@gmail.com | Blog Diário da Bagunça

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

 

Mulheres do século XXI

Por Simone Machado

 

Dançam ao seu redor como fantasmas

Sem rostos, sem nomes, sem presente, sem futuro

Nuas e submissas como escravas

Mas livres para dançar ou partir sob o luar nascedouro

 

Movam-se desastres da natureza!

Gananciosas e imorais, sois agouros!

Façam-me implorar pela sua complacência

São vossos os olhos que guiarão os medos vindouros.

 

Deusas e fascínios, mestres de muitas faces

Intrigam, confundem e abatem os homens

Que não compreendem que vós sois a lua una de muitas fases

 

Ao mais bravo guerreiro os seus pedidos são ordens

Nem um tolo lhes apresenta impasses

Sois as novas heroínas dessa guerra, as principais personagens.

Conto: Segredos, por Cesar Alcázar

O mundo de Cesar Alcázar gira em torno das letras. Quando não está criando algum conto, está trabalhando como tradutor ou editor da Argonautas. Não só as letras, mas as telas também fazem parte de sua trajetória. Começou a escrever ficção com o objetivo de publicação em 2008. Porém, desde 2001, escrevia sobre cinema. “Sempre fui contador/inventor de histórias (alguns poderiam me chamar de mentiroso, hehehe), então, acho que a transição das narrativas orais para a escrita foi algo natural, sem planejamento.”, conta ele.

Ele também atua movimentando a cena literária. Pelo seu trabalho como um dos organizadores e criadores da Odisseia de Literatura Fantástica recebeu o troféu Amigo do Livro, oferecido pela Câmara Rio-Grandense do Livro. Recentemente, Cesar se aventurou pela nona arte. Sua primeira HQ “A Música do Quarto ao Lado” foi lançada recentemente. A arte é de Eduardo Monteiro. Está em andamento também a “Contos do Cão Negro”, cuja arte é de Fred Rubim, e a primeira parte está disponível na página da webcomic.

Enquanto que o Cão Negro tem influência das paisagens e lendas irlandesas, no conto abaixo, a inspiração veio de Buenos Aires, como conta o autor: “A atmosfera local e a forma como os argentinos lidam com seu passado sombrio de uma ditadura militar, em contraste com o modo esquivo brasileiro de se tratar do assunto, foram a inspiração para a história”. Confiram, então, o conto “Segredos” e boa leitura. 😀

Contatos do autor:

sartanawest@gmail.com | Blog Sonora Razão

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Segredos

Por Cesar Alcázar

Agora consigo lembrar com clareza dos anos sombrios passados naquela casa em Calle San Martín. São inúmeras as memórias sufocadas dentro de minha mente por todo esse tempo. A mordaça psicológica que me calava por fim desapareceu. Sinto como se apenas hoje recebesse de volta um pedaço de mim que havia sido roubado.

Miserere mei, Deus. “Misericórdia de mim, Deus!” dizia a empregada Juanita todas as manhãs quando chegava para trabalhar na casa em que eu vivia com meus pais. Naqueles dias, eu não tinha idéia do significado das palavras da velha senhora. Quando li o jornal esta manhã, pude enfim compreender. Ela sabia o que acontecia naquele casarão opressivo de três andares construído no fim do Século XIX.

Enquanto o país mergulhava na noite mais longa e escura de sua história, vivi minhas próprias trevas. O pesadelo durou dos meus oito aos catorze anos de idade, mais precisamente de 1976 a 1982. Antes disso, minhas memórias são as de um menino normal e feliz, embora houvesse certa sensação de estranhamento. Sobretudo devido à cicatriz que atravessa o lado direito de meu corpo da cintura até o ombro, da qual jamais me foi falada a origem. Hoje tenho certeza do que se trata.

Como quase toda criança, eu tinha medo do escuro. No entanto, o medo não era infundado. Sempre tive a impressão de ser observado através das frestas na madeira, além de ouvir passos débeis e até mesmos suspiros no sótão acima do quarto quando anoitecia. O que me apavorava.

Sempre fui muito solitário. Encontrei a amizade apenas em Ana, filha de Francesca, uma empregada que morava conosco. Eu não podia ter amigos fora de casa por causa do trabalho de meu pai. “Alguém poderia usar você para chegar até ele”, lembro-me de ouvir minha mãe falar.

A situação ficou pior quando completei oito anos de idade. Se antes havia apenas o sentimento de algo estranho no ar, agora o medo era palpável. Podia ter certeza de que alguma coisa vivia no sótão e entre as paredes da casa. Minha imaginação infantil concebia um monstro horrendo e sedento de sangue prestes a saltar da parede para me pegar.

“São essas porcarias que você assiste! Devíamos proibi-los todos!” foi a explicação de meu pai.

Os filmes de Terror não tiveram sua proibição decretada nos cinemas, o veto atingiu apenas a mim. Além disso, acordei certa manhã e notei que todas as minhas historietas do Eternauta, Sargento Kirk e Guerra dos Antartes haviam desaparecido. Só muito mais tarde na vida percebi que foram tantos os desaparecimentos daqueles dias.

Nesta mesma época, meus pais começaram a brigar com frequência. Entre tantos gritos, eu conseguia entender meu pai dizendo “… o seu filho…” diversas vezes. Após cada discussão, ele subia ao sótão e ficava gritando sozinho por horas. Era possível ouvi-lo batendo os pés com raiva no piso de madeira.

Certo dia, esperei que ele descesse e pedi para que nunca mais subisse até lá por causa do monstro. Levei a maior surra de minha vida. Depois, levaram-me a um psicólogo, numa tentativa de me fazer esquecer o que chamavam de “fantasias doentias”.

Mesmo assim, continuei a vivenciar a atmosfera de medo em Calle San Martín. Entretanto, os primeiros anos de adolescência me trouxeram um pouco de paz. Fiquei cada vez mais ligado a Ana, por quem me apaixonei. Passávamos o dia inteiro junto. Como meus pais gostavam muito de Francesca, Ana teve a oportunidade de frequentar a mesma escola que eu, diminuindo meu isolamento.

Esta idade, é óbvio, não passa incólume de incidentes. No meu caso foi pior, muito pior. O fato selador de meu destino como um homem sem memória aconteceu no dia seguinte ao meu aniversário de catorze anos.

Ana estava comigo no pátio de casa. Todos os dias, ficávamos conversando no pequeno coreto até o fim da tarde. Neste dia em particular, meu pais haviam saído para um baile dos militares. Aproveitamos a ocasião e entramos noite adentro fazendo companhia um ao outro. Então, depois de tomar coragem, revelei a Ana sobre meus medos de outrora, sobre a criatura no sótão.

Ela riu sem parar durante um bom tempo. Confesso que senti vergonha por parecer tão medroso. Tão logo parou de rir, a expressão de Ana mudou. Lembro agora exatamente do que ela disse em seguida: “às vezes, minha mãe também sente coisas estranhas, como se estivesse sendo observada…”. Ana sorriu outra vez e continuou: “Já sei! Vamos subir no sótão!”.

Quando ouvi essas palavras, senti um frio na espinha. Ana, sem titubear, pegou minha mão e me levou para o terceiro andar. Apanhamos uma cadeira e a colocamos abaixo da portinhola. Assim consegui puxar o cordão que fazia a escada do sótão descer. O cheiro de mofo e podridão penetrou nossas narinas.

Com o aparato armado, ela fez questão de ir à frente. Queria demonstrar mais coragem do que eu. Tão logo se aproximou do alçapão, vimos um movimento no escuro. Ana não recuou. Acendeu um fósforo e estendeu o braço para iluminar o caminho. Então, aconteceu.

A coisa agarrou o braço da menina e tentou puxá-la para dentro do sótão. Segurei-a com força, mas não o suficiente, pois ela estava sendo tragada pela escuridão. Por sorte, Francesca ouviu os gritos e correu ao nosso socorro. A mulher conseguiu resgatar sua filha e, com uma rapidez incrível, fechou a porta do sótão. Não conseguimos ver a criatura.

Logo, Juanita apareceu. Seu rosto, uma máscara de condenação. Enquanto ela ajudava a cuidar dos ferimentos de Ana, arranhões enormes e profundos nos braços e no pescoço, nos reprovava com veemência por termos feito o que não devíamos. Francesca questionou a velha sobre o sótão. Juanita apenas respondeu: “Isso só diz respeito ao Señor Rivera!”.

Meus pais chegaram e nos encontraram reunidos na sala. Imaginei que haveria uma grande discussão, no entanto, isso não ocorreu. Meu pai pediu para conversar em particular com Juanita e Francesca. Ele não parecia abalado, e sim, frio como de costume. Mais ou menos uma hora deve ter se passado até que ele retornasse com as duas mulheres. Francesca levou a filha da sala, e fiquei lá sozinho com os três remanescentes. A frase que ouvi a seguir retumba neste instante dentro da minha cabeça: “Essa foi a gota d’água!”.

Acusaram-me de ter machucado Ana. Nunca tive a chance de falar com ela sobre o acontecido. Na manhã posterior, Ana e Francesca foram embora da Calle San Martín. Ganharam muito dinheiro para permanecerem caladas, é bastante provável. À noite, chegou minha vez de partir. Enviaram-me para uma instituição psiquiátrica, devido a supostas alucinações e comportamento violento.

Foram dois longos anos de terapias, choques e medicação pesada, até tudo o que aconteceu se tornar um vazio em minha mente. Voltei para casa como um morto-vivo.

Um ano depois, em 1985, após a queda do regime, precipitado por uma guerra atroz, meu pai foi preso e condenado. Ele cometeu suicídio na primeira semana de prisão. Minha mãe faleceu pouco tempo depois. De Juanita, Francesca e Ana nunca mais tive notícias, e se tivesse, de nada adiantaria, pois não me lembrava delas. Parecia que o segredo de Calle San Martín estava enterrado para sempre em minha memória.

Segredos como esse não podem persistir. Devemos fazer o possível para resgatar os horrores de nossos passados. Por mais que venha a doer. Enfim, tenho a minha oportunidade de reviver o passado. Pois todos estes fatos narrados aqui ressurgiram em um turbilhão de memórias quando o horror bateu à minha porta junto com o jornal hoje pela manhã. Uma ossada “quase humana” havia sido encontrada no sótão da velha casa em Calle San Martín. Meu irmão.

Livro: Neto e a Boca do Monte, por Lucas Visentini

Hoje é dia de inaugurar uma categoria muito especial aqui na CV: livros. Sim, ao final desta postagem, você poderá ler na íntegra “Neto e a Boca do Monte”. A obra foi escrita por Lucas Visentini e ilustrada por Filipe Furian, ambos participantes do III Concurso de Literatura Infantil Ignez Sofia Vargas, promovido pela Academia Santa-Mariense de Letras (ASL).

Quem fez a gentileza de nos enviar o livro foi o Lucas, que além de autor, é professor e mestre em educação. Fora o trabalho publicado pela ASL, ele também tem uma crônica publicada na quarta edição da Revista Bang Literário, pela Elo Editorial; e foi Um dos vencedores do Concurso #POAtuitada, cujo microconto foi publicado em um livro distribuído gratuitamente na 60ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Ao longo das páginas, é contada a história do sabido Neto e suas percepções quanto à natureza que o rodeia. Sua imaginação fértil transforma os morros ao redor da cidade em camelos adormecidos.

Ilustração: Filipe Furian para Neto e a Boca do Monte.
Ilustração: Filipe Furian para Neto e a Boca do Monte.

Quando Lucas contou para a CV sobre como começou a escrever, percebemos as interseções entre criador e criatura e como o lugar em que cresceu o inspirou:

“Tudo começou em Val-Feltrina, um lugarejo entre montanhas, no meio do mato, onde nasci e morei durante os primeiros anos da minha vida. Eu criava antes mesmo de poder escrever, tudo estava na minha mente, com a companhia rebelde da natureza sempre arisca. Lembro-me que eu conversava com os animais, e o engraçado é que eu tinha a certeza de que eles me entendiam, mas não respondiam por malcriação. Hoje eu sei que eles são educados…”.

Lucas pretende continuar com as referências regionais em seus projetos futuros e contou para a CV que vem mais livro por aí. Enquanto não lemos seus novos trabalhos, fiquem com essa doçura que é “Neto e a Boca do Monte”:

Contato do autor: visentinilucas@gmail.com

Para acessar o pdf do livro, clique no título: Neto e a Boca do Monte

15.05.31 - Neto e a Boca do Monte, por Lucas Visentini

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Poema: Ciúmes, por Kako Von Borowski

O Kako já é um parceiro querido aqui da CV. Ele publicou aqui o poema Ela Disse: (Cum) e respondeu a um dos desafios do site com O ponto mais Longe de Tudo. No post de hoje, ele traz um poema sobre um sentimento bem comum na vida de todos. Após a leitura, dá uma sensação de que se ouviram os versos também. Talvez pelo fato de o autor ser também um compositor. Confira essa musicalidade abaixo.

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Confira mais do autor na tag: https://cornucopiavacua.wordpress.com/tag/kako-von-borowski/

Contatos do autor: E-mail: matheuskakomusica@gmail.com | Facebook 

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Ciúmes

Por Kako Von Borowski

 

A pessoa apareceu e então despejou:

Aonde você vai, se somos um?

Eu tenho uma aparente paranoia

Você nem fica me jogando boia

E então afundamos achando ruim

 

Eu olho finalmente indignado

Em primeiro lugar, Vê se lambe

A parte mais suada do meu corpo

E fica empilhando todos os côcos

Até decidir se vai amar de verdade

 

Porque se ama, ama mesmo

Eu vou ser leal, etc e tal

Eu vou ser leal

Só se prometer, se prometer ser livre

 

livre e leve como uma criança

Que vê tudo, com sua inocência

Por que ela é hábito de pequeno?

Se o amor é um inocente pleno

No melhor sentido da incontinência

 

Lembra de como tratávamos eles?

Todos os nossos sentimentos

Toda a simplicidade do querer

Sem querer nunca nunca ser

Dono dos sentimentos de todos

 

Agora, mais calmo eu olho

Em segundo lugar, Por que

Tem essa atitude sobre nós

Esse condicionamento que faz nós

E deixa mais inseguro impossível?

 

Porque se ama, ama mesmo

Eu vou ser leal, etc e tal

Eu vou ser leal

Só se prometer, se prometer ser livre

 

Amo quando você ama

 

Estar com você

Me da a mesma sensação

De quando passo muito tempo ouvindo Jazz

 

As vezes sinto

Uma imensa vontade

De sumir e passar vivendo longe de todos

 

E então percebo

Isso e bobagem

Vocês todos fazem a minha vida

 

Então, se o amor

Ficar difícil de aguentar

Venha e fale com seu deus

Venha e fale com sua deusa

 

 

Mas eu sei

Se somos reflexos

De como nos tratamos, O que isso te diz

 

Sobre o Blues…

 

 

Então, se o amor

Ficar difícil de aguentar

Venha e fale com seu deus

Venha e fale com sua deusa

 

Poema: Poeminha de Natal, por Diogo Ferreira

Sei que ainda falta para o Natal, mas já está na hora de pensar nos pedidos. No poema abaixo, Diogo Ferreira descreve um relato de um homem sobre seus desejos para o bom velhinho.

O autor do poema escreve desde os anos 2000. Quando não está envolvido com poemas, Diogo atua em outros campos da arte como cinema, teatro e fotografia. Além disso, ele tem uma ocupação deliciosa que é a produção de licores artesanais.

A inspiração do poema veio na época de natal propriamente e das pessoas e suas linguagens próprias com quem Diogo convive em Bagé. O autor procurou falar sobre o que um homem simples do campo desejaria nesta data. Mais além, buscou utilizar a linguagem própria que se utiliza na região da fronteira, como um portunhol. O resultado é bem interessante e você confere abaixo. Boa leitura. 😀 – Luciana Minuzzi.

Contatos do autor:

diogotrincafilmes@gmail.com | Facebook

Imagem: British Library.
Imagem: British Library.

Poeminha de Natal

Por Diogo Ferreira

Papai Noel

Eu num sei escrivinhá mui bien.

Mas só queria pedi umas cosita no más.

Que a tambera desse nem que fosse uma cria esse ano que entrá.

Que o sorro pare de me batê nas galinha.

Que as oveia não tenha saiguapé.

E ainda se num for pedi demais

Que a chinita aquela me de uma olhada

Nem que seja de revesgueio

Pra eu sabê se dá pra chegá.

Ahí juntamo os trapinho e pode sê que pro ano

Por dezembro temo um piá.

E se nasce no dia 25, é meu presente pro senhô.

E ponho o nome de Noel.